01 Janeiro 2007

77. O FIM

O fim do Trópico de Capricórnio.
Encerra-se hoje a publicação de posts mas o campo dos comentários e das adendas continuará em aberto.
Setenta e sete posts de relatos de uma viagem pela África Austral que, para se seguir a correcta ordem cronológica, devem ser lidos de baixo para cima.
Para ajudar a leitura, pode-se usufruir da brilhante ideia que foi a numeração dos posts, como se tratasse de um marcador de livro. O índice na barra lateral é também muito útil como instrumento de navegação.


Um Fora do Mapa feito depois da experiência de outro Fora do Mapa foi naturalmente mais exigente. O facto de não termos conseguido publicar muitas fotos durante a viagem levou-nos, depois, a ser ainda mais minuciosos na selecção e edição destas. Com a Jornada também conseguimos escrever mais coisas e, logo, publicar mais posts apesar de, na prática, termos tido menos tempo para tal (por exemplo nas noites acampados ou nas viagens mais longas não tínhamos hipótese de escrever, quer fosse por falta de luz quer por excesso de trepidação). Sim, e também nos arrastámos muito mais na compilação de escritos já em Portugal.


Foi um prazer... árduo
J e Q

31 Dezembro 2006

76. FECHO DE CONTAS?

Para as recorrentes perguntas sobre Como foi que correu? Correu tudo bem? Gostaram? Do que foi que gostaram mais? amanhei uma resposta que arrumei na manga: O melhor foi chegar…! Desde olhares indulgentes, olhos esbugalhados, ou piscares de olhos, as reacções seguiram-se de acordo, provavelmente, com a preocupação inerente à pergunta feita. Mas era esta a minha melhor e a mais sincera resposta com o tempo que havia disponível para o diálogo. Noutras conversas, acompanhadas a chá e biscoitos, as explicações demoravam-se mais, mais do que até este post aguentará.
Não foi uma viagem nada fácil, nem prazenteira, nem meditativa. Foi cansados, ensonados, receosos, sujos, vigilantes e uma ou outra vez desacreditados que fomos desde a costa do Atlântico até à costa do Índico. Numa das conversas a chá e biscoitos alguém nos interpelou: Mas não era disso que iam à espera? Pois é, devíamos ter ido um bocadinho mais à espera “disso”? E já agora, “disso”? “Disso” o quê? A África por onde andámos não é nada do que se espera dela, mesmo que dela se espere tudo! Certo é que se alguém ler estes relatos e se puser a fazer o mesmo trajecto não vai encontrar senão surpresas e trazer do lugar outras experiências e outras histórias. Mais do que ouvir contar, do que ver imagens, do que pesquisar, há que ir até lá para conseguir perceber do que se fala quando se fala “disso” de África. A cada visitante África desvenda-se com uma forma própria.
Como exemplo "disso" repito a resposta que o Paulo de Mumemo nos deu quando, na sequência do seu relato sobre uma recente estadia na cidade do Porto, para assistir a uma formação, lhe pedimos que falasse sobre o que tinha achado de Portugal: que não sabia dizer, que era tudo tão diferente, mas não havia de se esquecer da passagem por Lisboa, uma cidade tão limpa que mesmo depois de um dia inteiro a caminhar pela cidade não tinha sido necessário engraxar os sapatos. Previsível? tão imprevisível como lógico.
Guardo a experiência desta Força da Terra. É ela quem mais ordena. É ela quem faz os seus povos serem como são, e preocuparem-se com o pó nos sapatos. Nós, europeus brancos do séc. XXI, não conseguiremos nunca antecipar-nos ao que de facto nos espera durante uma visita ao continente Africano. Não somos de lá, vivemos há anos sempre calçados e caminhamos sobre passeios de pedra e estradas de alcatrão. Podemos ir na expectativa “disso” mas nunca vamos acertar em cheio na previsão. Porque é que havemos de querer ser todos iguais? Porque razão achamos que esses povos devem ter o que nós temos ou ambicionar o que ambicionamos? Ou serão estes frágeis pretextos para podermos jogar as nossas cartas brancas?


Desta vez espremi do blog um Q-terapêutico que me ajudou a sair de algumas das experiências mais incómodas, permitindo-me ganhar uma perspectiva descontraída sobre elas e rir-me onde antes me tinha dado vontade de chorar.
Mas não foi sempre com prazer que me sentei à frente de papel ou teclado (esta coisa da disciplina não combina com a minha forma de escrever por inspiração). A produção deste post encetei-a contra a minha vontade. Por um lado é certo que chegámos há mês e meio atrás e estou já cansada de ocupar os meus tempos (que seriam livres) com a conclusão de posts e posts, uns começados ainda no sul de África, outros por lá magicados, outros achados cá. Mas por outro lado sinto-me a precipitar um “Fim” onde não quero chegar porque ainda não consegui perceber tudo o que vi ou senti, nem consigo perceber a diferença do que vejo. Mas há que distinguir: Blog e Viagem. Este é o fecho da minha participação no Fora do Mapa 2006. O fim dos relatos escritos. O fim dos pensamentos condicionados para posteriormente serem convertidos em palavras que se leiam.


On croit qu’on va faire un voyage, mais bientôt c’est le voyage qui vous fait, ou vous défait Nicolas Bouvier, L’usage du Monde (in Livre des Déserts)
Parece-me bem que esta viagem me desfez e aos poucos me tem vindo a fazer.
Fecho as contas ao blog, mas ainda não é desta que vou fechar contas com a Viagem.

75. MZUNGU

Mzungu significa Branco em swahili, homem ou mulher Branco(a).
Eu sou mzungu e fui bem lembrado disso ao longo do norte remoto da nossa viagem. As crianças apontavam-mo com gritos estridentes entre o gozo, o susto e a pedinchice: “Mzungu! Mzungu! ”Em Moçambique, quando não era mzungu era Patrão – um resquício ainda difícil de apagar. Esta naturalidade com que se distinguem as pessoas pela raça até pode ser candidamente inocente mas não deixa de me ser perturbadora.


O Portugal de hoje, e em particular Lisboa, é um lugar cosmopolita no qual eu me sinto bem. A sopa da nossa sociedade mistura emigrantes, turistas, estudantes e nativos. O prato é salgado e às vezes azeda mas quando comparado com certas comidas estrangeiras... bem nos podemos regozijar com o nosso meltingpotezinho. É feio discriminar mas confesso que no meu interior sinto de maneira distinta a presença dos vários forasteiros que se povoam por cá. Menos comiseração por chineses ou brasileiros, mais compaixão pelos de Leste e pelos africanos. Estranho é que, ao cabo de pouco tempo em viagem por África e no contacto com as gentes de lá, esta afinidade foi por água abaixo. Rapidamente me tornei imune à degradação, à miséria e, infelizmente, também à simpatia – que, quando acontecia, na esmagadora maioria dos casos acabava por se revelar interesseira. Tentei ser sempre respeitoso e correcto para com as pessoas mas de sentimentos fui duro, impenetrável, calculista.
Recentemente, em conversa com um amigo ele argumentou que quando há tamanha desigualdade (económica e cultural) é difícil gerar-se uma empatia genuína nestas relações entre visitantes e visitados. Esta perspectiva é-me extremamente desanimadora e contesto-a com experiências próprias que tive noutros contextos semelhantes (com a hospitalidade dos nómadas mongóis por exemplo, ou mesmo numa outra África – Cabo Verde). Penso que nem sequer é uma característica continental, talvez uma cicatriz da velha questão da África Subsaariana.
A propósito e como exemplo desta dificuldade, incluo de seguida uma reflexão de Paul Theroux acerca do acto de gratificar pessoas (em África) por um serviço prestado – a gorjeta:
“-I smile; you give me money- […] Tipping confounds me because it is not a reward but a travel tax, one of the many, one of the more insulting. […] It is bad enough that people expect something extra for just doing their jobs; it is an even more dismal thought that every smile has a price.”


Os nossos 45 dias sprintando pelo Shackled Continent foram migalhas. Migalhas de tempo no outro tempo que por lá passa. Migalhas de espaço na imensidão que por lá corre. Migalhas de conhecimento na vastidão de cultura que lhe é merecida. Migalhas de importância no seu significado. Mas para mim, insubstituíveis migalhas.
O meu fim é um contraponto à rigidez racional da minha postura em viagem. Houve momentos em que baixei as defesas e a emotividade prevaleceu…


Windhoek, cinco e meia da tarde. Andamos rápido porque a noite aproxima-se e ainda temos um caminho longo até à segurança do hostel. Paramos junto à entrada de um beco estreito. O que nos faz estacar é uma sonância vinda do beco, vozes humanas em canto – música. Curiosos, avançamos. A música avança também. Deparamo-nos com um pátio ocupado por uma esplanada, um café. A maioria das mesas está vazia, apenas em duas delas estão sentadas pessoas, mzungus. A sua atenção está virada para cinco indivíduos, não mzungus, que alinhados em pé cantam à capela, sem acompanhamento de instrumentos musicais. Uma mzunga fotografa-os entusiasmadamente sem esconder um sorriso com todos os dentes. Terminam a canção introdutória. Um deles toma a palavra e apresenta a actuação. Vêm do Zimbabué, vão interpretar canções tradicionais e também imitar animais. Recomeçam a cantoria com a canção zulu Shosholoza (originalmente cantada por trabalhadores emigrantes da Rodésia viajando no comboio a caminho das minas de ouro no Transvaal, Joanesburgo). Vozes elásticas, graves e agudos combinados, ritmo e melodia, harmonia. Movimentos corporais e percussão orgânica.
Arrepios percorrem-me a espinha num sobe e desce. Os olhos humidificam-se.
São seis da tarde e a noite não espera. Vamo-nos embora que os predadores preparam-se.

30 Dezembro 2006

74. Vendedores informais

Desde que abalámos da Namíbia e até que entrámos em Moçambique passou uma só semana. Foi o tempo que nos bastou para atravessar a Zâmbia e o Malawi. Nesses oito dias passámos por Livingstone, pelas suas cataratas, parámos em Lusaka, apressámo-nos em Lilongwe, subimos o Lago Malawi (Niassa), com direito a relax na pequena ilha de Likoma. Se tivéssemos feito isto em linha recta teriam sido uns 1250 km. Quando desembarcámos em Metangula, no norte de Moçambique, dispúnhamos de mais de duas semanas para conhecer o país. Com tantos dias por nossa conta abandonávamos assim o perfil de “turistas caducos” estilo soft e só passagem com que tínhamos atravessado a Zâmbia e o Malawi, e passávamos à condição de “turista perene”. A ideia agradava-nos. Temos para nós que é com a habilidade para percepcionar e partilhar os hábitos do lugar que conseguimos conquistar verdadeiros pedaços do que é a vida nas terras visitadas e levar connosco, para casa e pelo tempo, as melhores das recordações destas viagens. Mas estes hábitos locais que ansiamos partilhar podem também trazer rotinas que nos fazem comichão, que nos incomodam. E se assim for, será um instante para que vulgar urticária degenere numa grave infecção cutânea.
Descobri, melhor dito, confirmei que sou pessoa de pele muito sensível e de paciência curta! Durante estas duas semanas e meia de “absorção dos hábitos do lugar” confesso que fugi mais vezes e mais depressa das melgas que eram os vendedores de rua do que fugi das melgas que podiam ser portadoras de malária!


…pelo Mundo
Lembro-me, em Cabo Verde, dos vendedores Senegaleses de colares, pulseiras e outras peças de artesanato: "Ah, irmão português!!", repetiam aqueles retintos lá do continente, mas que dispersavam quando lhes dizíamos nos olhos que não valia a pena insistirem porque não íamos comprar nada.
E lembro-me da vendedora na Muralha da China que nos seguiu tal cão vadio, ao longo do troço que liga Jinshanling a Sematai. Foi uma impressionante experiência negativa quando, já à chegada, comprámos à sua colega um artigo (uma colecção de postais) mais caro do que aquele (uma garrafa de água) que lhe havíamos comprado a ela a meio do trajecto. "Ai-môla-lõnga" alegou ela, querendo com isto dizer que more longer nos tinha acompanhado ela no trajecto e portanto merecia que a maior despesa a fizéssemos consigo. Não o fizemos, não previmos a injustiça do que estávamos a fazer, também não desfizemos o erro. Aceitámos as palavras feias com que nos insultou e aprendemos a lição.
Na Namíbia ainda tive a paciência de puxar de um discurso diplomático como arma contra os vendedores atrevidos que já tinham o meu nome, o do meu irmão e o da minha irmã gravados à navalha numa pequena cabaça/porta-chaves. Tinham-me sacado os nomes com uma ligeireza de carteirista e demorei a topar-lhes o esquema. Foi já incomodada que lhes disse-lhes que me tinham enganado, que aquilo era “coisa que não se fazia” e que assim sendo não lhes ia comprar nada. Mas lá geri o assunto e os argumentos apresentados mais o chocolate derretido atirado para os seus colos arrumaram o caso.
Enfim, aqui e ali ainda fui conseguindo equilibrar esta coisa dos vendedores e esta coisa da minha maneira de ser. Mas foi em Maputo que a irritação cutânea se agravou e a infecção se instalou de armas e bagagens!


… no Norte de Moçambique
Ainda antes de sermos definitivamente empestados pelos vendedores de Maputo tínhamos já estado em contacto com outro grupo de vendedores: os vendedores refundidos do país.
Como gato a bofe se atiravam eles às janelas das Hiaces e dos buses que percorriam as terras do pobre interior norte de Moçambique. Depois das aldeias de cubatas de terra e colmo, das bananeiras, das vistas nuas de gente, a paisagem que nos chegava pelo vidro mudava para pacotes de bolacha, coloridos plásticos de bebidas, cestos com ovos cozidos e sal, algumas vezes frutas, galinhas, legumes, saquinhos de plástico com água, biscoitos fritos, batatas fritas mas não de pacote, tudo dentro de cestos assentes em carapinha ou agarrados por mãos de braços estendidos: bolacha cinco-cinco, sumo cinco-cinco. Era um negócio feito à confiança por dois lados de mãos anónimas: uma que entregava o pacote, uma outra que devolvia o dinheiro (negócio que vimos muitas vezes acabar em confusão ora porque alguém disse cinco ora porque outrem não quis dez; e bumbas uma palmada no vidro da janela ou pimbasum grito animal que calava o tropel.
A cada paragem da viagem de comboio entre Cuamba e Nampula os chamamentos aflitos dos pequenos vendedores mostravam a dependência que tinham em vender um copo de água que fosse. A cadência com que repetiam o pregão é som que não preciso de procurar para o voltar a ouvir. Um timbre agudo de voz ainda longe de ser adolescente: Á-guaaa… Á-guaaa! Fêjão-fêjão-fêjão! Cana… cana… Bananabananabananabanana! Mangáa, mangáa! Todos eles crianças com menos de 10 anos. De aqui para ali e de ali para cá descalços sobre o balastro. De trapos vestidos de pó imundos, a carregar à cabeças ou nos braços carga pesada que pouco mais leve ficava à partida do comboio. Em troca de quê todo este esforço? Não sei, nem nunca vou conseguir fazer ideia – eu não vivo numa cubata, não passo fome nem sede, não ando rota nem imunda.


Na Praia de Wimbi (bem no norte, em Pemba), tentaram oferecer-nos passeios de barco “para ver os peixinhos e os corais”. Seis moços, cada um na sua vez, vieram disponibilizar o seu barco para a actividade. E por seis diferentes vezes apontaram o mesmo bote de madeira com a risca vermelha como sendo o “seu”. À segunda já nos antecipávamos ao gesto do marinheiro, à terceira disseram-nos que era uma sociedade, à quarta já éramos nós a comandar o preço!
Terá sido por esta altura, entre a Ilha de Moçambique e a praia de Wimbi, que a urticária começou a degenerar. Precisamente quando apanhámos os negociantes em mentiras descaradas, auto desculpabilizando-se com histórias de uma família grande, tantas vezes pondo uma cara triste de mimo, com uma mão simulando levar comida à boca enquanto a outra poisava na barriga com fome.


… em Maputo
Mas em Maputo os vendedores de rua tinham galas de negociantes da capital. Sabiam atrair a vítima em inglês “mai frénde! Arô? Aro mai frénde!” ou num português local “Ámiiga! Ôo ámiiga!”. Engatavam o mesmo discurso feito à medida de cada variedade de produto: artesanatos em madeiras, pedras, tecidos; lenços de assoar, fichas triplas, raladores de cenoura (e outros legumes), panos da loiça, lenços de assoar, peúgas, pilhas, cartões telefónicos…Aos Sábados estendiam-se em feira pela Praça 25 de Junho. Durante os outros dias da semana arrumavam-se em pontos estratégicos da cidade: frente aos hotéis, à porta dos restaurantes, ou então andavam à paisana e apareciam vindos não-sei-de-onde.
Foi assim que se deu a conhecer Manel Batique (suspeito que tenha descido num rapell suave das varandas da Avenida 24 de Julho). Manel Batique surpreendeu-nos os passos de manhã quando íamos a caminho da Hiace que tomámos para Mumemo. Entabulou o diálogo: tinha uma coisa para nos mostrar. Dissemos-lhe que não queríamos comprar nada, e ele respondeu que nada queria vender, só mostrar a sua “arte”; dissemos-lhe que íamos trabalhar, e ele exibiu as mãos, ora a palma ora as costas, e disse serem aquelas mãos de artistas; dissemos-lhe que já tínhamos comprado tudo o que queríamos comprar e ele contou que era estudante mas não gostava de dar a sua arte a vender aos “vendedores” que lhe acabavam por ficar com os lucros. Fomos a Mumemo e de Mumemo voltámos. Mas foi só por acaso que tomámos o mesmo caminho, porque nem de Hiace regressámos. Manuel Batique apanhou-nos desta vez ao virar de uma outra esquina da mesma 24 de Julho (deve ter descido de um jacarandá com pára-quedas). Disse que tinha ficado à nossa espera, que tinha gostado da nossa sinceridade (aqui comecei a coçar-me), disse que não queria vender só mostrar, que a conversa da manhã lhe tinha dado sorte nas vendas do dia, pediu que ficássemos com o seu número de telefone e voltou a dizer que não queria vender só mostrar. Foi então que o Quico parou e disse (enquanto eu me coçava): mostre-lá isso então!. E o Manel puxou dos seus batiques e pousou-os no chão. Os batiques são uns tecidos pintados à mão, de tela grossa, com cores e desenhos africanos. Os batiques do Manel Batique eram iguais aos outros 990.889.107 batiques que já tínhamos vistos por toda a Maputo. (rebolei-me no chão, para coçar as costas, como vi as zebras fazerem no Etosha). Um nome assinava todas as peças: “Manel”; excepto duas delas: “Orlando” (que era o nome do pai do Manel, o pai herói que lhe ensinara toda aquela arte mas que agora vivia no estrangeiro - explicou-se ele sem termos feito uma só pergunta). A certa altura mostrei-me zangada e mandei o meu homem vir embora porque os dois minutos já tinham passado há 18. Manel Batique, compreensivo com a minha reclamação, quis oferecer-nos um pequeno exemplar de batique. Recusámos. Ameaçou pôr-se de joelhos para que ficássemos com o presente. Repreendi-o pela oferta e pela ameaça do gesto de humilhação. Manel Batique teve medo de mim, pediu-me para não ficar zangada com ele. Deixamo-lo para trás a arrumar a merda dos batiques na discreta, quase invisível, saca a tiracolo.
A minha dermatite tinha atingido um estado agudo, começava a ganhar cores violáceas com manchas negras. Mas foi à noite, quando o me Quico confessou que esteve quase-quase a comprar um batique ao Manel que chegou a ambulância e me levaram de vez para o manicómio!


Ainda hoje conservo aqui e acolá umas manchitas e cicatrizes. Só de pensar naqueles chamamentos de "amiga!" ou "mái frénde! Arô? mái frénde!" fico logo com uns pelinhos em pé. Depois, recrio na memória a mentira das posturas daqueles comerciantes de cidade, com claras intenções de roubar tanto quando pudessem ao turista disparando um preço que podia descer para metade. De seguida comparo estas tangas com cândida e esforçada honestidade dos vendedores dos buses ou do comboio que esgravatavam, entre si e os possíveis compradores, pelos cinco meticais do pregão inicial. E por fim não concluo: qual deles reflecte mais desespero? Qual deles tem vidas mais dependentes daqueles meticais?



As estações de serviço no interior norte de Moçambique; venda nas paragens do comboio entre Cuamba e Nampula; o mercado de Sábado na 25 de Junho em Maputo

19 Dezembro 2006

73. FILMOGRAFIA

72. BIBLIOGRAFIA

Desta vez carregámos com menos livros nas mochilas. O volume e o peso do material informático e de campismo não o permitiram. Fomos selectivos e inventivos – que trabalheira foi encontrar folhas de papel de 50 gramas e torná-las legíveis em fotocópias e impressões (letra 7) de textos que gostaríamos de ler em viagem.
Além destes A4’s, levámos 6 livros. Voltámos com 3. Os restantes regressaram mais cedo com a Guida.
Ainda imbuídos do espírito de redução de peso, cada um de nós comenta apenas um título, um eleito. Ficam no entanto registados em fotos todos os volumes pré-seleccionados.


Le Livre des Déserts - itinéraires scientifiques, littéraires et spirituels , sob direcção de Bruno Doucey, Editions Robert Laffont, 2006

É um livro infinito.
São 1200 páginas de papel de arroz, escritas em francês com pequenos caracteres. Acerca dos desertos (sobre os minerais, plantas, animais e gentes quem os habitam; sobre conquistadores, exploradores, imaginadores, músicos, pintores) palestram geógrafos, geólogos, botânicos, zoólogos, sociólogos, etnólogos, historiadores, escritores, poetas, teólogos, filósofos. Tudo intercalado pela Anthologie pour une Lecture Nomade, trechos onde bailam com o deserto autores de todo o mundo e de todo o tempo - desde o grego Heródoto do séc. V a.C até ao chileno Luís Sepúlveda dos nossos dias.
Assim é certo que qualquer coisa que se relacione com o deserto estará nestas páginas. E ainda se podem ler os capítulos pela ordem que muito bem nos aprouver. É um verdadeiro professor-dos-sete-instrumentos. A continuar a ler e a ler e a ler.


2006 foi declarado pela UNESCO como o Ano Internacional dos Desertos e da Desertificação
Jota


Dark Star Safari , Paul Theroux, Penguin books, 2002

Para variar, um livro de viagens.
O americano sexagenário Paul Theroux regressa a África depois de ter sido professor no Malawi e no Uganda. Overland from Cairo to Cape Town, é este o subtítulo da obra, o percurso da sua viagem. Theroux motiva-se para esta odisseia dizendo que se dirige para escuridão, ou seja para terra incógnita. Daí o seu safari da estrela escura.
Em África nos anos sessenta foi um jovem professor optimista. Quatro décadas depois, partiu para esta aventura na expectativa. De lá voltou satisfeito mas pessimista, bastante pessimista. Gostei muito.
Quico




18 Dezembro 2006

71. Dormidas

Hotel, hostéis, backpackers lodges, guest houses, pensões, pensõezecas, campismo, campismo improvisado, tenda de campanha, cabana, challet, buses em andamento, buses parados e deck de ferry-boat. Um belo sortido de cada uma das tipologias de alojamento que tivemos o prazer de experimentar neste Fora do Mapa.
Para facilitar este resumo final, arrumámos o sortido em três naipes: Debaixo de tecto, Nas lonas e Sobre rodas.


Debaixo de tecto
Chapéus de casas há muitos! E tal como cada cabeça, cada quarto também dita a sua sentença.
O
Rivendell, em Windhoek, foi o melhor lugar sob tecto onde ficámos alojados nesta viagem. É uma moradia com jardim e piscina, quartos acolhedores (uns com casa-de-banho, outros sem), alpendre fresco para o descanso do fim do dia e uma cozinha comum muito funcional. Esta casa-de-hóspedes é claramente direccionada para receber turistas não-africanos tal como outros lugares por onde já tínhamos estado (Joanesbrugo – Gemini Backpackers Lodge; Cidade do Cabo - Inn Long Sreet ; Swakopmund - Villa Wiese) ou por onde iríamos passar (Caprivi Strip - Ngepi Camp; Livingstone - Jollyboys Backpackers; Ilha de Likoma - Mango Drift). Mas ao contrário deste últimos, no Rivendell colaboram com empenho namíbianos em todas as tarefas (o jardineiro, as senhoras da limpeza, as senhoras que passam a roupa, e as “gestoras” - diurna e nocturna), nem o negócio é aqui encarado como uma empreitada de sorrisos à chegada e indiferenças à partida. Gostámos da sincera simpatia discreta mas muito prestável e aqui deixamos a nossa recomendação para quando forem ou revisitarem a Namíbia.
Zâmbia, Livingstone, duas noites, dois alojamentos, dois estilos: Jollyboys e Kutaway Lodge. O primeiro é um típico alojamento para backpackeres looking for fun, o segundo um típico alojamento para os “locais”. O primeiro tem piscina, ping-pong, snooker, loja de artesanato, internet, serve pequenos-almoços, snacks, jantares e bebidas, organiza viagens às Cataratas Vitória, bungi jumping, jet boat rides, micro flights, scenic helicopter flights, river boarding, white water rafting canoeing e certamente qualquer coisa mais!! O segundo nem vem no Lonely Planet. Tem um pátio sombreado para onde dão todos os quartos e à volta do qual se espojam sofás e poltronas coçadas. Tem um restaurante vazio e na cozinha uma só cozinheira. O trinco da porta do nosso quarto nem trancava - durante a noite encostámos a cama à porta – a água quente acabou no fim do banho do Quico para voltar uma hora mais tarde depois de eu já me ter lavado com um frio fino de água. Suspeitámos que poderia tratar-se de uma pensão de meninas mas foi a primeira vez que nos sentimos dentro de um alojamento estilo afro.
Mas em Moçambique (ui!) íamos ter tempo de nos fartar dos alojamentos estilo afro. Por exemplo, em Lichinga não fui capaz de usar a casa-de-banho; em Cuamba e em Nampula tomávamos banhos de balde, despejávamos o autoclismo de balde também e ainda lavávamos os dentes com água do mesmo bidão; em Pemba - no Nautilus Beach Resort - o Quico travou uma batalha de gritos verdadeiros contra uma baratonga voadora; e em Maputo – no The Base Backpackers tivemos o cesto do lixo do quarto atacado por um cardume delas, tamanho small.
Enfim, à quinta semana de estilo afro já estávamos a ficar pretos com tanto sarro! E mesmo tendo começado a procurar lugares “melhorzitos” só nos desencardimos com eficácia na Ilha de Moçambique na Casa de Hóspedes Mooxelelya ou, mais tarde, no Íbis (como já foi devidamente elogiado lá atrás em Splurge e em ... Maputo ao nosso colo).


Nas Lonas
Carregar às costas a tenda, os colchões, os sacos de cama, os lençóis de seda, as redes mosquiteiras e até uma pequenina almofada foi mais proveitoso do que pensaríamos. Para além de reduzirmos nas despesas e de nos garantir a auto-suficiência, o material de campismo revelou-se de grande importância em situações que não tínhamos previsto: a tenda safou-nos várias vezes de ficarmos pendurados à conta de “está tudo cheio” menos a relva; os colchões de encher serviram várias vezes para encorpar vários colchões verdadeiros (de cama) mas muito encovados; os lençóis de seda garantiram-nos o conforto e frescura sobre outros preparos de panos menos limpos.
Logo à nossa estreia como campistas em África, ficámos em cinco noites acampados em cinco lugares diferentes. O monta-desmonta do quarto cansa mais a mente do que o dormir no rijo cansa o corpo. Depois destas cinco dormidas intervalámos duas noites em boa cama mas quando queríamos continuar a usufruir dos prazeres físicos de um leito bem posto batemos à porta do Ngepi Camp onde vago só estavam os lotes para montar tenda. Na última noite no Ngepi tivemos de alugar uma tenda de campanha porque o bus partia antes de chegar a luz do sol e não era a pilhas que conseguiríamos fazer caber todo o material dentro das mochilas. Mas partíamos da Namíbia com uma cama ao fundo do túnel. Rumávamos à Zâmbia, apontados a dormir em Livingstone, e acertámos em cheio no Jollyboys Backpackers onde estava tudo “booked-up, we just have camping or dorms” … e mal por mal lá acabámos a montar a tenda outra vez.
Memorável fica a noite de campismo improvisado (ou melhor, abençoado) à porta da Reserva da Costa dos Esqueletos, na Sringbokwasser Gate, num círculo relvado gentilmente emprestado por sete galinhas e seu galo. Naquele fim de tarde, depois de concluídas algumas peripécias, estávamos à beira de não ter um lugar para dormir. Quando indagámos o funcionário da Sringbokwasser Gate sobre a hipótese de acampar naquele circulo de relva (que na verdade tinha apontado a si uma tabuleta que sussurrava amping ouvimos um desculpado “ah sim podem, mas atenção que ali não se paga”! Enfim, lá a família do guarda partilhou connosco a bebé nascida há sete dias e emprestou-nos o fogão onde aquecemos uma sopa instantânea que só por acaso ainda tínhamos. A Terra, a nascente partilhou uma paisagem desértica num amarelo sem fim e a poente um pôr-do-sol sobre nuvens que se confundiam com ondas.


Sobre Rodas
Nos buses tanto dormimos em bancos aveludados e reclináveis para de manhã sermos acordados com o cheiro do café servido a bordo (serviços Sul Africano e Namibiano), como dormimos entre corredores de baratas num bus estacionado no terminal (de Lilongwe) à espera que o sol raiasse para que a segurança nascesse.
De todos os filmes que vimos passarem nos vídeos dos autocarros aquele de acção mais intensa, o com maior suspense, foi o filme em que nos vimos metidos no trajecto entre Joanesbrugo e a Cidade do Cabo: estivemos no meio de uma tempestade de relâmpagos! Mesmo no meio, com relâmpagos ora de um lado ora de outro. Na escuridão da noite vê-se bem a raiva com que os raios furam a terra – temi que nos furassem a fuselagem do autocarro. Confortei-me na total ausência de preocupação de todos os outros passageiros, e tripulação.
Merecendo registo houve também a dormida debaixo das estrelas a bordo do ferry-boat Ilala (não propriamente sobre rodas mas sim em movimento. À partida de Chipoka, as águas espelhadas do Lago Malawi prometiam uma bela noite ao ar livre. Depois de um jantar a bordo de peixe frito, montámos os colchões e sacos de cama sobre as madeiras polidas do deck, num lugar escolhido ao milímetro para escapar ao óleo dos cabos, ao barulho malcheiroso do motor, à luz das gambiarras, aos canivetes suíços e às, igualmente inconvenientes, baratas locais (com uns 6 cm de envergadura). Aparentemente estávamos bem protegidos, mas a meio noite o vento levantou-se e a chuva acordou-nos cuspida com violência. As exigências milimétricas de há duas horas atrás passaram para outro plano e fomos re-montar os colchões na zona coberta do convés, bem perto do barulho malcheiroso do motor, das luzes e da música teimosas do bar. E assim adormecemos, ao ritmo dos coices da ondulação, eu num sono leve e sempre na cisma de que as mochilas, as máquinas e as botas haviam de ir borda fora num destes gingares (que de manhã ainda faziam dançar o Ilala e enjoar o meu estômago!).


E pronto, foi por lugares assim que dormimos. Nas primeiras noites fartei-me de sonhar com a iminência da partida como se ela ainda não tivesse acontecido, e sempre em episódios rocambolescos que punham em perigo a sua concretização (nunca me tinha acontecido… Freud explicaria!). Depois passámos às noites partilhadas com bichinhos: foram passos de mabecos (cão selvagem africano), risos de hienas, osgas nas paredes, formigas nos pés da cama e finalmente baratas e mosquitos. À chegada a Moçambique sobrepôs-se aos bichos um calor terrível que nem à noite passava, deixava de arder na pele mas continuava a colar. E depois lá voltaram os sonhos, desta feita com as rotinas que nos haviam de esperar no regresso a Portugal.
Abafado, amplo, arejado, arrogante, autêntico, barato, barateiro, barulhento, básico, carote, caríssimo, castiço, sombrio, familiar, frio, imundo, limpo, luminoso, pequeno, postiço, prestável, sujinho, típico… é distinta a diversidade de poisos onde temos dormido, nesta e noutras viagens! Distinta e de profunda impregnação: uma vez, num exercício de memória, conseguimos recuperar cada um dos lugares de noites passadas em cada uma das viagens que já fizemos juntos.


Backpacker's travel guides to Southern Africa:
Coast to Coast
The Alternative Route




Gemini, camping no Waterberg, o bonito Rivendel; Vila Wiese, Mango Drift, The Base; Jollyboys, Kutaway pátio, Kutaway quarto

17 Dezembro 2006

70. BUSES

Há 58 dias atrás, no Ngepi Camp, publiquei o post CARROS. Nessa altura planeava escrever mais tarde um post BUSES, este post. Tínhamos entregue o Corola alugado e não perspectivávamos voltar a usufruir de transporte privado, entraríamos de aí em diante no reino exclusivo dos transportes públicos. Afirmava-se-me lógico, naquele ponto, separar as águas. Falaria de CARROS agora e de BUSES depois. Não adivinhava é que a partir de aí, as experiências com os transportes fossem tão fortes que, invariavelmente, estivessem presentes nos relatos do dia-a-dia (ver sobretudo os coloridos posts da Jota: CHEGADA À ILHA DE MOÇAMBIQUE e FOTOS SOBRE COMO CHEGÁMOS NÓS A PEMBA).
Olhando agora para trás, é pouco motivador (para mim e para os leitores) fazer uma análise descritiva extensa dos veículos em falta. Serei portanto curto e grosso, deixando as demais considerações para a interpretação visual das imagens (uma forma de comunicação muito mais directa).


BUSES ou MACHIMBOMBOS*:

Grandes empresas “ricas”(África do Sul e vizinhanças) com Volvos de 40/60 lugares e ar condicionado: Greyhound, Intercape, Translux/City to City – Quase profissionais sérios!


Grandes empresas “pobres” (Zâmbia, Malawi, Moçambique) com MarcoPolos de 80/120 lugares e sem ar condicionado: CR, Grupo Mecula, Transportes Oliveira – Quase profissionais a sério!


MINI-BUSES ou CHAPAS**:

Pequenos entrepreneurs “não sei se ricos se pobres”(por todo o lado) com Hiaces de 9/20 lugares e ar descondicionado: motorista (normalmente o dono do carro) e angariador/cobrador (usualmente empregado do último) constituem o staff. Partem quando cheios. O preço acerta-se à entrada e paga-se a meio percurso quando o cobrador o exigir – Um quas(o) sério de profissão!


*Nome pelo qual se designam os buses de tamanho médio/grande em Moçambique.
**Nome pelo se designam os mini-buses em Moçambique (chapa resulta do bilhete custar, noutros tempos, chapa cem).




o bus da Intercape da Cidade do Cabo até Windhoek, a hospedeira desse bus e o respectivo atrelado para as bagagens, um bus atravessando a fronteira entre as ex-Rodésias(Zâmbia e Zimbabué) nas cataratas Vitória; um machimbombo em Nampula, chapas em Maputo

16 Dezembro 2006

69. O QUE NÃO HÁ ONDE DEVIA HAVER

Por ordem alfabética porque nem cronologia nem valia conseguem ordenar esta balbúrdia. Ora, em Moçambique não houve onde devia haver:

Á de…
Açúcar
no Café em Nampula – desculpe mas não vamos poder servir um café ao senhor. Sim, café temos mas não temos açúcar. Acabou ontem.
Água nos canos em 3 alojamentos dos 7 por onde ficámos - banho de púcaro tirado de um bidão, sanita despejada a balde, dentes lavados à balda.
Água quente em 5 alojamentos dos 7 por onde ficámos é verdade que o calor torna este banhos suportáveis mas somada uma dúzia de banhos continuados o corpo já não se sente limpo mesmo se bem esfregado com sabão.

Cê de…
Colheres de sopa no restaurante – pedimos 3 sopas. Vieram 3 sopas, 2 colheres de sopa e 1 de sobremesa. O melhor foi esperar que uma das colheres ficasse disponível. A sopa era grossa demais para se beber.

É de…
Elevador
no hotel de 11 andares – no Íbis um papel amarelado e de cantos dobrados informava que por causa das cheias o elevador (um de dois) não estava em funcionamento. Esperavasse que a bomba retirasse a água do poço do elevador.

Guê de…
Gasolina
no depósito da pick up – transporte público que tomámos de Metangula para Lichinga, tossiu o motor, praguejou o condutor óh oh tá querendo arranjar problema, desapareceu no escuro e apareceu em meia hora passada com um galão de gasosa.

Ésse de …
Selos
na estação dos correios – os presenteados podem confirmar 33 meticais da nova família ou 33000 meticas em cada postal para Portugal. Em Pemba fomos por duas vezes à estação de correio: importância disponível em selos atingiria as sete unidades para perfazer o valor desejado; ainda em Pemba fomos a outra estação de correio: tinham vendido os últimos selo ontem (!!); em Maputo acabámos com os selos de 33 meticais no quiosque dentro dos correios e tivemos de ir comprar mais ao guichet. Os primeiros pareciam reciclados de outros envios, datavam de 2004 os segundos de 2002.

Tê de …
Troco
nas lojas - e isto de forma sistemática, no início pensámos que se estavam a fazer à gorjeta mas a repetição da situação, e o facto de assistirmos a moçambicanos serem vítimas do mesmo mal, fez-nos concluir que o caso é crónico. Alguém nas aldeias do interior anda a enterrar moedas de mil meticais.

E claro que também não há horários de transporte, nem paragens de autocarro, nem lugares marcados, nem lugares de todo; nem tampouco há horários de estabelecimentos comerciais ou serviços público, ou quando os há trata-se apenas de um papel pregado que não vincula mais nada; também é fácil acertar com algo que apesar continuar apresentado no menu já não há ou nem houve e ser-se bem atendido num dia não garante o sucesso se repetido no dia seguinte. Cruzámos ainda com a falta de determinadas pessoas às quais estava atribuída uma função exclusiva, resultado esperar que chegasse o sr. Chefe da polícia ou a senhora da caixa registadora.

Tudo isto devidamente misturado com recorrentes, “sim temos tudo”, “não há problema”, “sim há mas não funciona” e pés arrastados e gestos lentos. Et voilá, preciso de civilização (ainda que só da nossa).



a capela do forte de D.Sebastião onde nem à segunda visita pudemos entrar porque não se sabia da chave; o segundo posto de correios, terceira tentativa frustrada para comprar selos; e como se adia a inauguração de uma exposição

27 Novembro 2006

68. WE(O)MAN

Nós os homens, achamo-nos mais fortes que o sexo fraco. Na força medida em newtons verificar-se-á esta assumpção mas força, num sentido mais etéreo, é cosa mentale e este post é um tributo à têmpera das mulheres que viajam sozinhas por esta África!


“And thanks a lot for the bandage, you guys”. Foram estas as últimas palavras de Coline, quando nos despedimos. Francesa, 26 anos, jurista, auto-desempregada ao serviço da ONU e manca de uma perna (temporariamente, espero).
Quando a conhecemos no ferry-boat Ilala já Coline coxeava há uma semana, consequência de um desafortunado acidente de viagem. Ao descer de um mini-bus com as suas mochilas pesadas colocou mal o pé no degrau e torceu o tornozelo com uma tal violência que se estatelou no chão, perdendo os sentidos durante 20 minutos. Esta contrariedade não a demoveu de continuar a gozar as suas seis semanas de férias viajando por cinco países da África Austral. Nem pensar! Desembaraçada e transpirando recursos, brincava com a condição negra e inchada do seu pé: “Today, disaster!...now I will stay on the beach and rest”. No dia anterior tinha massacrado o calcanhar já dorido com uma caminhada de 10 km pela Ilha de Likoma, e em chinelos! (as botas, doou-as algures no Zimbabué). “Tomorrow I’ll go again, I get bored when I stay two days in the same place. I have to keep moving. One day on the mini-buses, two days rest, that’s my rhythm”.
Coline tirou direito internacional e durante este último ano o seu trabalho foi defender alguns dos altos responsáveis acusados de genocídio nos tumultos de 1994 no Ruanda. O tribunal criminal internacional da ONU especialmente criado para julgar estes crimes está sedeado em Arusha na Tanzânia, a sua residência antes do desanuviamento das férias. “The judges are very bad, there is no justice, the sentences are already decided, everybody will get ‘life’, the political pressure from the new government in Rwanda and the international community is very strong…I was fed up, now I have to find another job”…Coline aturou o sistema durante um ano. Desempregou-se e foi viajar.
Dez dias depois da despedida, voltámos a encontrá-la em Pemba. Avistámo-la num bus e de longe ainda trocámos umas palavras: -”How’s your foot?”-“It’s going much better!”-“when do you leave?”-“Tomorrow? Me too, have to keep moving...” E lá foi, com a nossa ligadura a amparar-lhe o caminhar.


Das várias fêmeas que compareceram no casting, elegi a Coline para protagonizar a Scarlett O'Hara deste post. O papel de Melanie Hamilton atribui-o a Becky. Inglesa, 21 anos, chefe-pasteleira, auto-desempregada ao serviço dum restaurante chique de Manchester e manca das duas pernas (piadinha paralela). Em sentido figurado, refiro-me à sua inabilidade natural. Se Coline emanava desenvoltura, Becki manifestava o oposto. Introvertida, indecisa, pouco expedita, aparentava uma (in)preparação latente para as exigências duma viagem a solo por África.
Em Cuamba, notámo-la sombria a cirandar pelas ruas (é difícil não reparar em brancos no meio de tantos pretos). Várias vezes nos cruzámos com ela e nunca nos olhou nos olhos até que um momento de aflição a fez revelar-se: -“Sorry, this is going to sound really weird but I’m 10 meticais (0.30 euros) short in order to buy the train ticket to Nampula, and I don’t want to travel third class. Can you borrow me?”-“Sure, no problem.” -“Thanks a lot you guys, when we get to Nampula I will pay you back”. Como ainda era véspera da partida e lhe perspectivámos um jejum nas próximas 30 horas, sugerirmos-lhe: -”You know, there’s an ATM machine just around the corner...”. Ela não sabia, como não sabia umas quantas outras coisas úteis em Moçambique – exprimir-se em Português, por exemplo. A partir de aí, de Cuamba até à Ilha de Moçambique, foi nossa companheira de viagem, com visíveis vantagens para o lado dela.
Becky escolheu como destino da sua primeira grande viagem África. Do Egipto até Madagáscar, em nove meses. Porquê? –“The Nature, the animals...” E lá foi, com alguns conselhos nossos a ampararem-lhe o caminhar.


Coline e Becky. Tão diferentes e tão iguais na atitude corajosa de lá estarem sós, naquelas circunstâncias, na força mental. Pena é esta firmeza feminina não contaminar mais o espírito de muitas mulheres africanas, tão estigmatizadas que estão com tantos flagelos: mães solteiras, alimentadoras da família, poligamia, mutilações genitais, apedrejamentos... ai we(o)man!



Coline, Becky e a condição feminina em África nas portas das casas de banho do Mango Drift

20 Novembro 2006

67. Tasca do Quinzena

No troco do regresso à civilização, que nos rodeia o dia-a-dia de quando não estamos Fora do Mapa, recebemos o atraso da Ibéria à saída de Barajas e, com mais agrado, o céu enublado e a cidade húmida, os mimos dos que nos esperavam, as novidades trocadas no almoço scalabitano em família e as várias perguntas que não têm resposta nos textos deste blog.
Esta rotina, que conhecemos bem, vai entrar no nosso metabolismo tão depressa quanto foi fazer os 8000 km de avião que nos levaram a sair de Joanesburgo e pousar em Lisboa. Num repente. Hoje, segunda-feira, estamos já de volta aos horários do dia trabalho, da semana em Lisboa. Estaremos diferentes? Bem, acordar às seis da manhã, como hoje, nunca foi hábito meu.
O ritmo Dentro do Mapa também nos apraz e temos muitas saudades de o sentir a compassar a nossa vida – saudades do conforto dado pelos hábitos e pelas rotinas que escolhemos para serem as nossas. Mas temos agora de agarrar o que trouxemos connosco das últimas seis semanas e meia para que não seja já devorado por este corre-corre glutão.



Joanesburgo International Airport; nuvens madrilenas; bem-vindos!

17 Novembro 2006

66. DE VOLTA A JOANESBURGO


As sofríveis memórias de há seis semanas fizeram-nos planear um regresso ao ponto de partida o mais indolor possível. Se houvesse maneira de entrar no avião sem tocar naquele famigerado ambiente ter-lo-iamos feito, de tão saturados que estamos de experiências marcantes. Chega! Já temos que baste por agora! Precisamos é de espaço e tempo de digestão.
Destarte (andei a adiar o emprego desta palavra algo recorrente na minha escrita e agora é que foi), o mais indolor possível foi confiar nas “fiáveis” ligações dos autocarros sul-africanos e chegar a Joanesburgo seis horas antes da partida do avião. Dispensámos uma dormida e reduzimos a estadia à necessária travessia entre a Park Station, o complexo de transportes localizado bem no centro, e o aeroporto internacional, a 30 km de distância.
O bus da Translux revelou-se luxuoso q.b. (sem baratas mas as fugas de água do ar condicionado choviam por cima da cabeça de alguns passageiros) e cumpridor do horário tabelado. Às 16:00 estávamos na Park Station. Os 200 rands (cerca de 20 euros) que tínhamos reservados para o táxi (o transporte mais indolor) não chegaram: “it’s 220 rands Sir”. Último levantamento nos ATM - 150 Rands e sempre tomamos uma bucha antes do voo. O Táxi, apesar de não ter qualquer identificação, pareceu ser oficial e serpenteando o trânsito caótico de uma sexta-feira à tarde lá nos deixou nas International Departures.
Despedimo-nos de Joanesburgo novamente “pelo vidro”...



16 Novembro 2006

65. PARA CASA

Começamos amanhã a última etapa desta aventura. Depois de um terrestre Altântico-Índico, em 5 semanas, celebramos o regresso num aéreo transcontinental África Austral-Europa Ocidental, em 24 horas. Ao fundo: o conforto da casa.
Viajamos de Maputo até Joanesburgo num bus da única empresa das três grandes que ainda não experimentámos. Depois da Greyhound e da Intercape, vamos seguir a bordo da que tem fama de ser a mais luxuosa de todas, a Translux, que nos foi recomendada pelo revendedor de bilhetes por ser a mais fiável. Com partida marcada à 7:45 temos chegada prevista 8 horas depois à Park Station de Jo'burg. O avião da Ibéria parte às 22:20 locais. Com escala em Madrid será às 9:15 da manhã de sábado que pisaremos o Aeroporto da Portela, umas 27,5 horas depois da saída de Maputo. Contudo, depois destas seis semanas e meia e deste compasso de espera e descanso pelo qual optámos (mas que nunca mais acabava) em Maputo, as 27,5 horas são um palmo de tempo.
Estamos desejosos por chegar! Até lá!!
(o que é que está em cartaz nos cinemas?)



passeio até à "outra banda": a praia de Catembe, do outro lado do rio Espírito Santo; e por falar em cinema...

64. UM DIA EM MUMEMO

"Benfica! Benfica", ouvia-se de dentro da Hiace.
Não, não se efabulava o maior clube português, antes se anunciava o destino daquele autocarro colectivo.
Levantamos o braço em sinal de aceitação da direcção proposta. Entramos e… surpresa: lugares vazios. Arrancamos do centro de Maputo, defronte do Museu de História Natural, para a periferia, pela avenida Eduardo Mondlane acima.
Benfica, um agitado mercado suburbano fervilhante de cores, sons e cheiros castiços. Apeamo-nos. Começa o bombardeamento de ofertas de negócio: "Sumo! Bolacha! Castanha! Costa do Sol! Museu! Marracuene!". Enxotamos todas as outras e aceitamos esta última, um chapa com destino a Marracuene. Entramos e… sem surpresa: lugares ocupados. Apertamo-nos. Esperamos mais uns minutos enquanto se apertam mais uns quantos passageiros. Satisfeitos com o carrego, o motorista e o angariador decidem partir.
Avançamos pela principal saída Norte da cidade e que liga a capital ao resto do país. Asfalto recente, traçado melhorado. Resultado: uma estrada muito rápida e muito, muito perigosa. Faixas de rodagem são duas, mas se cabem três carros porquê não ultrapassar em qualquer lado? Aceleradores a fundo, curvas cortadas, velocímetros nos 150 km/h, o pão-nosso de cada dia. A evolução da tecnologia consumida até aos limites, porquê refrear?
Nós estávamos avisados para este particular panorama rodoviário (afinal o que faríamos nós numa Hiace a caminho de Marraquene?). O nosso objectivo era visitar o trabalho de um amigo. O trabalho sim, porque o amigo, esse já não se encontrava visitável naquele local. Passo a explicar, queríamos ver Mumemo. O que é isso? Mumemo é um bairro de realojados das cheias de 2000/2001, ‘aquelas‘ que deixaram 'meio Sul' de Moçambique sem casa. Localizado a 30 km de Maputo, Mumeno é uma operação de realojamento de 1700 famílias promovido pela Congregação das Irmãs Franciscanas Hospitaleiras da Imaculada Conceição (ver site mumemo). O trabalho de um amigo? O amigo chama-se Miguel Mendes e é arquitecto. O trabalho foi ministrar um curso de construção com terra (ver blog mumemo) e de formação de formadores que decorreu entre Maio e Agosto de 2006 e no qual foi construída uma edificação nas técnicas de Taipa e BTC. O Miguel instruiu-nos da maneira de chegar a Mumemo: "Pedes ao motorista para te deixar no bairro da casa branca, que ninguém conhece aquilo por Mumemo".
A Hiace parou. "Casa branca é aqui". Descemos e olhamos em volta, contentes por nos encontrarmos intactos. Casa, nem vê-la, nem branca nem de cor alguma, apenas um entroncamento com uma estrada de terra. A Hiace segue o seu destino e deixa-nos. Recordo as palavras do Miguel: "tomas a estrada de terra sempre em frente e não chegues depois do anoitecer, é muita perigoso". Não sabemos a qualidade do perigo em referência, mas são 9.45 da manhã, portanto devemos estar 'em segurança'. Avançamos.
O caminho rasga uma vegetação verdejante por entre colinas. Vislumbram-se habitações por entre a mata. Cruzamo-nos com gente. "Bom dia... Bom dia...". Caminhamos há quinze minutos e continuo a não localizar esta paisagem na memória informática que tenho de Mumemo. Estaremos no sítio certo?
Mais dez minutos e estávamos.
Entramos na rua principal, a mesma estrada de terra agora ladeada por lotes de quinze metros por vinte, cada qual com uma pequena 'moradia' de oito metros por três, implantada ao centro. À frente, um pequeno jardim, atrás algum terreno. "Onde fica a casa dos voluntários?" inquirimos a uma senhora de alguidar na cabeça. "Por ali? Obrigado."
Reconhecemos a dita-cuja das fotos do site e mesmo ao lado, lá estava, o resultado prático dos quatro meses de estadia do Miguel - a casa de Terra.
Tendencialmente, preferimos visitar os sítios que queremos ver em registo low profile, sem alertas para a nossa presença. Em África, por razões raciais - diga-se sem constrangimentos - na maior parte dos locais esta preferência é uma impossibilidade a não ser que nos transforme-mos em mosquinhas (tantas vezes foi este o meu desejo jornalístico). No caso da visita a Mumemo, contrariámos esta tendência logo à partida uma vez que, através do Miguel, avisámos previamente as gentes locais das nossas intenções, facto que resultou numa comitiva de recepção logo que assentámos praça na casa dos voluntários.
“Alexandre? Olá como está, muito prazer. O Miguel falou-nos de si, que foi o melhor aluno do curso”. Sentamo-nos no alpendre. Trocamos recados do, e para o, Miguel. Conhecemos Paulo, professor de electrotecnia na escola profissional de Mumemo e que também frequentou a formação. Visitamos a casa. Não está ainda totalmente acabada, faltam alguns acabamentos, mas emana dignidade. Reflecte trabalho árduo, técnicas arcaicas mas apuradas, e sobretudo boa vontade.
“Vamos visitar o bairro? Comecemos pela escola profissional” propõe-nos o Alexandre. Somos logo empurrados para o gabinete do director da escola, com quem conversamos sobre as actividades da mesma: “Com os nossos cursos tentamos formar profissionais, mas como encontrar emprego é difícil, incentivamos os alunos a criarem os próprios negócios no final (mecânicos, electricistas, serralheiros, carpinteiros, etc).” Damos uma guided tour por todos os recantos da escola. Despedidas calorosas.
À saída junta-se à comitiva Manuel Monteiro, engenheiro agrónomo, voluntário português em Mumemo por um ano, com quem já tínhamos falado ao telefone: “Então e como está a agricultura por aqui? - Oh, o problema é a rega. Sem água cultiva-se o que dá… milho, repolho, mandioca. Eu vim para ‘fazer hortícolas’ e só vou ter o necessário sistema de rega a funcionar quando me for embora…”
Continuamos a caminhar pelo bairro. Alexandre é o anfitrião: ”Aqui é o Centro de Convívio…aqui o Centro de Saúde…ali a Casa da Irmãs, vamos ver a minha casa”.
As condições das casas do bairro de Mumemo, são consideravelmente distintas das da casa de Terra, para pior claro. A tipologia é única: três divisões, uma cozinha, uma sala, um quarto. Instalações sanitárias não existem. Água, vai-se buscar à fonte. Construtivamente, as paredes são de blocos de betão vazados e as coberturas de chapa sem isolamento térmico – quentinhas no Verão portanto.
“ Entrem, vejam o meu certificado de curso”. A casa é muito pequena e qualquer mesa ou cama lhe afoga o espaço. Contudo, apesar de cheia está impecavelmente arrumada.
Seguimos para o mercado, um enorme espaço coberto com apenas algumas bancas ocupadas onde se vendem bens alimentícios frescos. “Estes produtos são produzidos aqui? – Não, os comerciantes compram-nos nos mercados de Maputo”.
Próxima paragem: escola primária. Para nos receber é logo alertado o director da escola: “Estamos em período de exames de fim de ano, muito trabalho, nós não estamos mal, temos turmas de 40/45 alunos, há professores que dão aulas a turmas de 70!”
De volta à casa dos voluntários: “Vamos ao almoço?” convida o Manuel. “Não estávamos à espera mas muito obrigado”. Sopa de feijão, frango assado, arroz de repolho, salada de alface e tomate.
No regresso a Maputo aproveitámos uma boleia numa pick up Toyota Isuzo, que estava ao serviço das irmãs. O trajecto fizemo-lo com o coração nas mãos. A cilindrada da Isuzo, o pé pesado e as ultrapassagens kamikazes do motorista agravaram o perigo eminente do percurso.
Em constante sobressalto rodoviário tentamos a custo desviar a atenção para a conversa do passageiro sentado no lugar do morto: ”Ele tem uma casa muito boa, fiz-lhe um projecto por 3000 contos. Na altura era dinheiro…vocês são arquitectos também? Muitos estrangeiros têm-se mudado para cá! É muito fácil fazer dinheiro, dois anos de trabalho e já estás, já és senhor do teu nariz...vêm aquele pavilhão? Fui eu que desenhei. E ali, vêm o cemitério? Antes era o paiol militar, e eu também participei na sua transferência para aqueles terrenos lá atrás…e gostaram de Mumemo? Fui eu que fiz aquilo tudo!”




a estrada da "casa branca" e a casa de BTC e Taipa; a estrada de Mumemo, a escola e o mercado




as casas de Mumemo; Alexandre, Paulo, o Director da escola profissional, Manuel Monteiro e o Director da escola primária

63. PELAS ESQUADRAS

Como anteriormente descrito no post FOTOS SOBRE COMO CHEGÁMOS NÓS A PEMBA, o meu telemóvel foi-me habilmente surripiado do bolso durante os apertões na entrada para o autocarro de Namialo com destino a Pemba.
Foi com o intuito de participar do ocorrido que me dirigi à esquadra da polícia na praia de Wimbi, em Pemba. Obviamente não tinha qualquer esperança de recuperar o telemóvel, o objectivo era obter uma cópia do relatório policial para, uma vez em Lisboa, accionar o seguro de viagem que, sendo topo de gama, cobre furtos de bagagem. Seria também uma boa oportunidade de observar em acção o sistema policial Moçambicano. Mal sabíamos o que nos esperava.
01.
Entrei na esquadra, uma moradia adaptada, e dirigi-me à única pessoa fardada presente dizendo das minhas intenções. Mandou-me aguardar na saleta. Sentei-me. Um placar de esferovite pregado na parede exibia um mosaico de fotos tipo-passe de indivíduos detidos (a lista negra). Na sala anexa, um escriturário muçulmano batia à máquina um relatório. Esperei 15 minutos, tempo em que a máquina bateu 15 letras. Chamaram-me a uma outra sala. O agente fardado, de metralhadora em cima da secretaria, deu-me a palavra. Expliquei o sucedido e as minhas pretensões três vezes, até que o agente se rendeu à evidência de que eu não poderia ter feito a participação na esquadra de Namialo, uma vez que, aquando da ocorrência, já me encontrava dentro do autocarro a caminho de Pemba.”Sim está bem, aguarde lá fora um pouco por favor”. Mais 15 minutos de espera e voltou a chamar-me. “A pessoa que podia fazer isso hoje já não está cá, só amanhã...”. “Ok obrigado, deixe lá que eu vou hoje para Maputo e trato lá disso”. Retirei-me, entediado com a inércia.
02.
Dois dias depois, sábado, já com a companhia da Jota, dirigimo-nos à esquadra da baixa de Maputo, um verdadeiro quartel de polícia. Repetiu-se processo e desta feita com consequência, uma vez que o agente de serviço manuscreveu o acontecimento no livro de ocorrências. Quando esperávamos que nos fornecesse uma cópia, disse: “Agora, na terça-feira têm de se dirigir a este lugar para levantar o relatório”. A custo, conseguimos que nos apontasse no mapa o local, e lá nos resignámos à perspectiva de mais uma distracção pelos processos burocráticos locais.
03.
Na terça-feira, à hora prevista, estávamos na Secção de Investigação Criminal do Ministério do Interior. Dirigimo-nos à secretaria. Aguardámos 15 minutos na fila de espera. Entregámos o talão com o número do processo à funcionária. Sem nos dirigir palavra, avistámos o almejado relatório nas suas mãos durante 15 minutos, enquanto resolvia outro assunto paralelo. Quando nos abordou, em vez do relatório, devolveu-nos o mesmo talão por nós entregue, agora adicionado da referência "8º andar". Tentei perguntar-lhe “Isto para que serve?” mas não obtive resposta. 10 minutos volvidos e insisto de novo, ao que ela responde “Sim sim acompanhe este senhor que ele trata disso”. Tentei interpelar o tal senhor (trajado à civil) acerca do que se passava, mas ele só dizia “Sim, sim venham comigo”. E lá subimos oito andares a pé, porque o elevador já deve ter morrido faz muitos anos, até um gabinete onde, ao som de marteladas que destruíam a canalização na varanda adjacente, o tal senhor disse: “Então ao que vêm?” Pacientemente voltámos a explicar a situação ao que ele retorquiu "Aqui a burocracia é demorada. Quando vão embora? Sexta! Hum... sim, acho que vai dar para resolver. Voltem na quinta-feira”. Com esta não nos ficámos, e insistimos em como bastava uma cópia do documento que ele tinha na mão (o tal que já vinha da funcionária da secretaria), que não queríamos pesar o sistema criminal com aquele assunto menor, que era só para o seguro, que desistíamos da queixa se nos copiasse o documento, que só precisávamos de um carimbo no formulário comprovando a nossa participação do furto. Perante a nossa insistência, o agente Sebastião, (entretanto assim auto-apresentado), hesitou e mostrou-se compreensivo. “Está bem, vamos então descer que eu faço a fotocópia”. Vínhamos no 6º andar quando o agente Sebastião é tomado por algo que o faz retroceder no prometido.”Hum...hoje faço o carimbo no formulário mas o relatório só na quinta-feira, tem de ser “o oficial” com selo branco e tudo”. Assentimos.
04.
Quinta-feira, último dia em Maputo, voltámos ao gabinete no 8º andar do agente Sebastião. Este, ao avistar-nos pareceu surpreso. “Bom dia, como estão? Tudo em ordem? Hum...houve um problema na sala das máquinas e não foi possível fazer o documento oficial. Vamos lá baixo e entrego-vos a fotocópia do relatório.” Descemos. O agente Sebastião desapareceu pela secretaria de onde voltou 15 minutos depois, e com um ar solene, quase confidencial, entregou-nos o seguinte documento:

62. O ENDEREÇAMENTO

Moçambique. 17 milhões de habitantes. 11 milhões rurais. 6 milhões urbanos. 4 milhões nas periferias "de caniço". 2 milhões nas zonas "de cimento".
Como "bom país em vias de desenvolvimento", Moçambique segue a tendência global de atrair um crescente número de população às (grandes) cidades. Nestas novas urbes, coexistem justapostos os centros de origem colonial e os arrabaldes africanos. Uma hipertrofia territorial de difícil gestão urbanística.
Recentemente, e na sequência das reformas governamentais (pós anos 90) de intuito descentralizador, foi tomada uma decisão política importante neste contexto: iniciar uma operação de endereçamento dos municípios.
Segundo o especialista Teodoro C. Vales (doutorando no Institut d'Urbanisme de Grenoble), o endereçamento consiste num "instrumento operacional de apoio à gestão, que permite localizar no terreno uma parcela ou uma habitação, ou seja, definir o seu endereço, a partir de um sistema de mapas e placas de identificação das vias, mencionando a sua numeração ou denominação e a das construções." Na prática, codificam-se todas as vias através de numeração (a toponímia é processo moroso e ficará para mais tarde) e todas as portas de acesso às parcelas (correspondendo neste caso a numeração atribuída à distância em metros do início da via a cada uma das portas de acesso).
Maputo, entre 1995 e 1999, foi a primeira cidade intervencionada, seguindo-se Beira, Nampula, Pemba, Quelimane e Matola (2000-2005), estando previsto em seguida, o lançamento do endereçamento nos restantes 27 municípios do país.
Embora a aplicabilidade do endereçamento seja multidisciplinar - na gestão de equipamentos e serviços urbanos (escolas, mercados, lixo, hospitais, bombeiros, polícia, tribunais, electricidade, água, telecomunicações, etc) - o principal motivo da sua implementação é: cobrar impostos. O endereçamento é um instrumento de localização dos contribuintes no âmbito da nova imposição fiscal. O poder local, em vigor a partir das eleições municipais de 1998, por via do afrouxamento do apoio do Estado, viu-se na necessidade de gerar receitas próprias de financiamento e, portanto, melhorar as fontes de cobrança do fisco tornou-se uma prioridade.
Abstenho-me de comentários porque me sinto leigo no assunto. Limito-me a registar queixas que ouvi da boca de dois comerciantes de Nacala, em conversa no compartimento de primeira classe do comboio Cuamba-Nampula: "- Chiii, minhámiga! Tou muito mal, o negócio vai mal! Os cobradores (fiscais) disseram-me que devia 40 milhões! Como é que vou pagar isso? Já negociei os tempos de pagamento mas não vou cumprir, vou pedindo adiamento. - Pois é, isso tá mal! Minha prima disseram que devia 6 biliões! - 6 biliões!!?? O melhor é declarar falência, fechar a empresa e depois abrir outra. - Tá mal, tá mal!..."


15 Novembro 2006

61. AI, O MERCADO DE PEIXE

O que pode ser mais autêntico do que comprar peixe directamente ao pescador no seu regresso da faina e tê-lo cozinhado num restaurante próximo? No guia Lonely Planet e nas palavras do funcionário do The Base - backpacker's (onde estamos instalados por metade do preço do que no Íbis) quase que se vive um sonho com a leitura destas descrições. Nada mais puro, nada mais fresco. Pois é, e nada mais enganoso.
Quatro e meia, cinco da tarde chegámos de chapa ao mercado de peixe da cidade de Maputo. Afinal as instalações do mercado não ficavam sobre a praia mas antes do lado de lá da estrada marginal. Pescadores e seus barcos nem vê-los, nem cheirá-los. No mercado bem menos de metade das bancadas estariam ocupadas. Logo ali ao lado um vendedor debatia-se por endireitar um peixe que tinha ficado torto na congelação. Peixes arrumados lado a lado, por tamanho, por qualidade: peixe serra, peixe pedra, peixe encarnado, pargo, corvina, camarão vários calibres, lulas idem, caranguejos e lagostas vivos, amêijoas. Um instrumento como uma pequena esfregona de fibras plásticas enxotava as moscas (algumas delas), alguns baldes de água.
Tenho algumas noções teóricas sobre como escolher peixe. Um aspecto geral e um cheiro saudáveis são-me instintivos, depois as guelras vermelho vivo, os olhos salientes e transparentes e as escamas arrumadinhas resumem o que aprendi nas lições maternais durante algumas idas "à praça". Preços de peixe não faço ideia, preços ali no mercado muito menos (manda a boa regra profissional que não se assinale o preço), preços em Moçambique sei que é justa a metade do que o vendedor propõe inicialmente.
Na primeira volta às bancadas fomos assediados por todos os vendedores de quem somos logo "amigos". Mostrei-me sisuda, não encetámos negócio com ninguém. Saímos e fomos avaliar a zona dos restaurantes. Igual, assediados por todos e de todos "amigos".
Regressámos ao mercado começámos a estabelecer contactos. Este já provámos, este há lá, este é grande, este é pequeno, este não. E este? Era o peixe que estava debaixo de todos os outros. Achei horrível o aspecto dele, com a pele toda engelhada e sem olhos. Segundo a teoria do vendedor o peixe já estava amanhado. Abriu-o, não tinha tripas, as guelras não eram vermelhas vivas e a barbatana traseira do peixe estava toda ratada. Atirei ao ar que era grande demais para duas pessoas. O vendedor ripostou que aquilo é que era bom que tinha muita carne. Pesou-o numa balança que tirou do bolso. Um quilo! 120, pronto 100 e eu vou ali arranjá-lo (outra vez? não estava já arranjado?). Não quero. Vamos dar outra volta. No regresso ainda estávamos mais baralhados. Ou íamos para as lulas ou levávamos peixe num tupperware para o quarto. E nisto o Quico decidiu-se e mandou embrulhar o peixe sem olhos. Tive tempo para lhe dizer que só uma de coisa estava eu certa: o peixe sem olhos é que que não. Mas já estava. A "amiga" vai vê que vai voltá prá dizer que o peixe 'tava bom!.
Pois foi, eu voltei lá depois do jantar mas o gajo já tinha fugido. Aquela corvina era farinha. Nunca tinha comido um peixe assim. Tal e qual uma sardinha moída mas do tamanho de uma dourada de mar. Bagh!
Depois do fiasco o pobre do Quico é que ficou mais em baixo. Confessou que até se tinha deixado convencer pelo discurso do gajo e que estava à espera de no fim do repasto reconhecermos ambos que o vendedor até tinha sido um bacano. Eu lá consegui desamarrar a burra: Mamã, aprendi bem a lição sobre como escolher peixe fresco!


Nas nossas viagens há sempre um conjunto de acontecimentos ou peripécias que não nos "chamam" para os posts, não nos apelam para o relato. São regra geral acontecimentos intensos, quer soberbos quer merdosos que, sem que pensemos muito nisso, acabamos por manter em privado, podendo calhar contá-los ou vivo ou não.
A nossa ida ao mercado de peixe foi um acontecimento intenso merdoso sobre o qual, na altura, não me apeteceu escrever nada. Agora, largos dois dias passados sobre o episódio e talvez com o ar fresco da perspectiva da partida, apeteceu-me relatar o assunto aproveitando para proporcionar aos auto-entitulados "invejosos" com a nossa viagem (mais) uma visão realista de episódios menos bons que salpicam esta aventura.



o mercado de peixe antes da escolha; barcos no porto marítimo de Maputo

14 Novembro 2006

60. Pequeno-Almoço Expresso

Esta terça-feira tomámos um autêntico pequeno-almoço português de sábado: um galão e uma torrada acompanhados pela leitura de dois exemplares da revista do semanário Expresso, a Única (datados de 14 e 21 de Outubro). Sem hesitar, começámos por folhear a revista de trás para a frente, para parar logo ali onde diz "Viajante". O nosso quase-herói G.C. em papel e a cores!*
Estas duas crónicas relatam a passagem das fronteiras do Congo para o Gabão e fazem-no em grande estilo, com um humor que nos desmancha a rir mas que reconhecemos como a postura sensata a ter perante a séria dificuldade que é, para um português, cumprir um trajecto em terras de África a monte num transporte público. Foi com uma emoção muito única que tomámos este pequeno-almoço, partilhando com a leitura alguns sentimentos ainda frescos para nós.
Mas neste post queremos apenas deixar registada (outra vez) a admiração por este viajante, valorizar a paciência e o bom-espírito com que se deixa levar pela "África que merece". Um grande bem haja e estás cada vez melhor!


O Paraíso dos Sabores fica na Avenida Eduardo Mondlane, ao lado de um dos únicos sítios onde foi possível encontrar postais. É um típico estabelecimento Moçambicano traduzindo-se numa pastelaria portuguesa com fabrico próprio que funciona em simultâneo como padaria. Sobre uma das bancadas fomos encontrar jornais e revistas de edição portuguesa.


* Os fiéis mensageiros electrónicos das crónicas do Cadilhe que não nos levem a mal, mas antes compreendam que nas idas aos postos de internet apenas nos sobra tempo para passar os olhos sobre os textos satisfazendo-nos o conteúdo com a resposta a "onde é que o gajo vai?" - o que já nos sabe muito bem!



Maputo

13 Novembro 2006

59. CONSOLATA FORJAZ


em Maputo, na avenida 24 de Julho, as instalações dos Missionários da Consolata da autoria do arquitecto José Forjaz

58. MODERN MAPUTO

12 Novembro 2006

57. RTP INTERNACIONAL

Tentámos antecipar o regresso a casa ao nos deixarmos embriagar pela informação emitida na RTPi e RTPáfrica, aqui no bem-bom do hotel Íbis duas (super novas) estrelas.
Para que fique registado, e porque para os que estão na pontinha ocidental da Europa estas novidades não o chegam a ser, deixamos aqui expresso o que nos surpreendeu no âmbito nacional.
O congresso do PS entre as gentes das lezírias. Santarém está cada vez mais Alfacinha.
Teatro Rivoli? – não conseguimos entender o que foi que se passou no Rivoli? Alguém esclarece?
O re-referendo do aborto agendado para o início do próximo ano (novidade que recebemos quando o nosso mini-rádio-chinês ainda funcionava em Windhoek, na Namíbia e à qual voltamos agora)
Greve geral de dois dias da função pública. Geral? Dois dias?
O Mafra ganhou ao Vitória de Guimarães para a Taça de Portugal. Eh!
No futebol de praia perdemos para o Brasil e depois ainda para a França. Oh!
Mudaram os números da Segurança Social.
A nova grelha da RTP: “Diz que é uma espécie de magazine” – os Gato Fedorentos voltam a esparvoar. Já nos fartámos de rir com a aptidão do Carlos Lopes em apresentar uns prémios Nova Gente e com a tranquilidade do Paulo Bento.


Novidades repetidas, das que se falam de tempos a tempos mas não deixam de estar na moda: lá se passou mais um Verão quente de São Martinho e o ordenado mínimo nacional também há-de chegar aos 400 euros.


Mas novidade ainda vai ser encontrar as ruas de Lisboa a meio do mês de Novembro, com chuva muita chuva, com luzinhas de natal e castanhas a assar. E a casa. Quentinha.

56. Chuva


As saudades que temos de casa são tantas que até fizeram chegar ao sul de África a chuva que tem caído em terras Lusas.
Hoje, Domingo, Maputo acordou cinzento. O dia passou entre a morrinha e uns pingos mais grossos, na pacatez domingueira que caracteriza também a Baixa de Maputo. Nós refastelámo-nos no Íbis, aproveitámos o ambiente para não fazer muito ou fazer muito pouco e descobrimos que de facto este fare niente é muito contagiante e de fácil habituação. Ainda assim fomos à polícia apresentar queixa sobre o furto do telemóvel na esperança de que o seguro cubra qualquer coisa. A ver.
Vamos ficar aqui por Maputo até sexta-feira. Não há assim tanto para fazer por aqui mas entre palmilhar a antiga Lourenço Marques, uma ida a algum lugar aqui perto, aproveitaremos para recuperar o corpo, descansar a alma, assentar ideias e assim esperamos chegar a casa mais em forma do que é habitual!



do Ibis: janela por fora, janela por dentro, janela indiscreta

11 Novembro 2006

55. Beira à nossa beirinha e...

Sem que o soubéssemos o nosso avião em rumo até Maputo fez escala na cidade da Beira! E nunca antes por nós experimentado, esta escala deu direito a sair do avião durante 20 min. (de novo, traduziram-se em mais do que 20). Esta sexta-feira pisámos portanto chão da Beira e entregámos assim em mão os cumprimentos ternos que trazíamos na bagagem. Foram retribuídos com saudade!
A cidade da Beira é a segunda maior cidade de Moçambique e planta-se à ponta do Canal de Moçambique acima do estuário do rio Pungoe. No verso de um mapa do país de Moçambique leio que esta cidade é famosa pelos seus camarões e praias de areia branca (a de Macuti parece ser a preferida). Também lhe apontam ter um leque de exemplares arquitectónicos, variado em época e estilo construtivos. Ah, e tem o cinema São Jorge, um dos maiores e mais ornamentados de toda a África.
Do que vi do ar posso relatar que a Cidade da Beira está rodeada de terrenos planos, uns de cultivo e outros que parecem ser bem mais húmidos e alagadiços. Ao contrário da paisagem que nos acompanhou à saída de Pemba, uma imensidão seca bordada de areia branca, aqui há uma série rios que serpenteiam terrenos que se encharcam, chegando ao mar vários em deltas (cremos ter conseguido identificar o do Zambézi). Na parte urbanizada identificámos a linha-férrea que serve a cidade (que sabemos não fazer serviço de passageiros e da qual conhecemos tão bem a Estação, cara da moeda de 500 Meticais), uma grande via de acesso (uma novidade nesta nossa viagem por Moçambique) e casas e prédios arrumados em pequenos quarteirões até que numa curva apertada o nosso piloto se fez à pista e o filme terminou. Na descolagem seguinte ficámos literalmente a ver navios.



fotos aéreas à chegada à cidade da Beira


... MAPUTO AO NOSSO COLO
Quando chegámos a Maputo a esperança de virmos ao encontro de um pouco de civilização esmoreceu com a espera do tranfere que tínhamos marcado aquando a reserva telefónica do quarto do hotel. (Acabámos por ter de telefonar do aeroporto e à chegada lá nos esclareceram que o empregado responsável pela marcação do transfere a fizera do Hotel para o Aeroporto e não ao contrário!!)
Estamos muito bem instalados no 10º andar de um Íbis (duas estrelas) a 56 dólares com mata-bicho incluído. Sim, é mais um splurge mas hoje já andámos a ver as alternativas. Ainda assim vamos continuar neste luxo por mais duas noites até mudarmos para outro a metade do preço mas conforto q.b. (está cheio para já).
Um banho que tomámos ontem à chegada, de água quente (finalmente! o meu último datava de 23/10 e fora ao ar livre), demorado e com sabão Lux, em conjunto com um espelho grande e iluminado por luz fluorescente, fizeram-nos ver que afinal isto não é sujidade: nós estamos mesmo corados pelo sol! (s.f.f. sem comentários em relação ao formato deste bronze "espontâneo").
Hoje já andámos pela cidade, ainda que um pouco ao sabor de resolver assunto práticos, que também nos perseguem em férias (a saber: procurar um quarto; comprar selos e postais - uma séria aventura; saber empresas e respectivos horários dos buses de quinta ou sexta-feira até Johanesburgo). Visitámos o mercado de artesanato que aos Sábados se estende na Praça 25 de Junho com os vendedores mais chatos que alguma vez conheci e tão formatados no seu discurso que me fizeram retrair de imediato. E também o mercado municipal onde se vende de tudo, desde os habituais peixes, legumes e frutas - abrigados pelo corpo principal do bonito edifício antigo, passando depois por frutos secos, utilidades, carnes, pássaros de gaiola e produtos para cabelo, estes já instalados em barracas que se acotovelavam no exterior com corredores abafados pelos plásticos e vapores dos víveres. Estivemos ainda no Porto Marítimo de Maputo, na pequena Fortaleza da cidade (onde presenciámos um casamento com poses fotográficas dos noivos sobre os fálicos canhões!?!) e num pulo visitámos a Estação de Caminhos-de-ferro, desenhada por um discípulo de Gustaf Eiffel, recuperada, com uma bonita porta giratória de madeira, azulejos e duas locomotivas antigas em exposição. Tudo isto num espaço de um quilómetro, um pouco mais. Gostámos das ruas largas, com sabor a avenidas de Roma e da Liberdade, com edifícios coloniais destruídos, outros recuperados, uns novos que rebentam e outros que rebentaram mas não deram fruto (obras paradas, várias, de edifícios de muitos pisos de altura). Que mais em Maputo?



fotos do 10ºandar ao amanhecer de Maputo

09 Novembro 2006

54. ANGOLA SEM LÁ ESTAR

Em Angola não estivemos mas, de fugida, fomo-nos encontrando com ela.


Na piscina da casa de hóspedes Rivendell, em Windhoek, fomos visitados em português pelo angolano Rui Quimio de São Paulo. O ainda jovem Rui estuda e pratica artes visuais em Windhoek, onde está radicado há alguns anos. Até lá chegar passou por uma formação em Cuba e já conta no seu c.v. com diversas exposições individuais e colectivas, inclusive nos EUA e na Europa. Trabalha principalmente em gravuras a preto e branco sobre linóleo, das quais nos mostrou uma selecção. Os temas variam em torno da cultura africana, da natureza, dos animais, dos costumes. Inquiri-o sobre uma gravura em especial, onde figurava uma máquina que consumia pessoas, por assim dizer. Respondeu-me que era alusiva a um projecto de construção de uma barragem no norte da Namíbia com o intuito de promover o desenvolvimento agrícola das populações e de como, na opinião dele, se corre o risco de apagar identidade de um povo caçador/recolector - os bosquímanos (bushman).
Apesar de não lhe termos comprado nenhuma gravura, oferecemos-lhe a explicação sobre o fabrico do linóleo, que ele julgava ser um plástico derivado do petróleo e cuja notícia de que afinal se trata de um composto de materiais naturais o deixou muito satisfeito. Para os interessados, aqui ficam os seus contactos online:
http://www.savagewords.com quimio_rui@yahoo.com





Durante o nosso automobilizado périplo pelo centro/norte da Namíbia, parámos em Grootefontein para reabastecer a logística no supermercado local. Nas prateleiras saltaram-nos à vista produtos e rótulos familiares (Atum General e Bom Petisco, latas de conserva Compal, Água das Pedras), mas a gratificação maior surgiu no momento de pagar quando fomos simpaticamente abordados em português pela senhora da caixa. O seu nome não consta deste registo mas o sorriso e a alegria desta angolana (já agora o profissionalismo também) foram, orgulhosamente, por nós notados.


Ainda no decorrer dos 2200 Km da volta à Namíbia, na noite da minha depressão em consequência do já relatado "acidente de automóvel contra as pedras", jantámos no restaurante do Lodge Etosha Gateway, onde acampámos. A refeição foi cara e péssima, sobretudo para mim que, praticamente, nada comi. Pior que a alimentação estava o ambiente, cujos responsáveis pelo Lodge reclamavam de pitoresco - um grupo de danças e cantares africano entretinha os comensais. Que sofrimento foi ouvi-los entoar um desafinadíssimo emplastro jamaicano "we are one family" à medida que se bamboleavam desajeitadamente pelo espaço apertado entre as mesas. A agonia chegou momento de aplaudir e observar o olhar embevecido de alguns dos nossos, já envinhados, companheiros de restaurante...terrível!
Todo este à parte descontextualizado só fará sentido quando referir que o criado que nos serviu este desafortunado repasto era angolano, se chamava Francisco, e logo que percebeu que éramos portugueses deu dois chochos na cara da Jota e da Guida. Foi o contraponto positivo de toda aquela malfadada noite.
Francisco, como muito outros compatriotas, emigrou de próximo do Lubango para a Namíbia, fugindo à guerra na procura de melhores condições de vida. Veio só, mas mais tarde trouxe a família próxima deixando, claro, muitos parente e amigos "na terra".
Falámos, entre as idas e as vindas dos pratos, do péssimo estado das estradas do Sul até Lubango, da dificuldade em obter visto para visitar Angola entrando por terra e dos nossos planos de atravessar a Zâmbia. Francisco falava português com alguma dificuldade e socorria-se de interjeições: "Xiii tás ja ver né? Na Zâmbia é igual yá! Uns gaijo pega numá farda do tempo da guerra, do avô, pra passá po militar! Vê turista e multa. Vais ja ver...100 dolar! Corrupção yá yá!"


Quando saímos da Namíbia, via faixa de Caprivi, um sul-africano ao perceber que éramos portugueses e ao nos ver entrar em Bagani, perguntou-nos se tínhamos ido visitar a família. O "privilégio" de estarmos três dias presos no Ngepi Camp, fechou-nos a possível relação com esta comunidade de portugueses, vinda de Angola, ali estabelecida no negócio das relações comerciais desde os tumultuosos anos de 1975.


Estes fortuitos mas sentimentais encontros com Angola deixaram-nos com pena de passar ao lado desta poderosa ex-colónia. Ali tão perto e no entanto tão longe pela quase impossibilidade burocrática da obtenção do visto. A mim, em particular, ficou-me o amargo de boca de ter estado próximo do local onde meu avô paterno perdeu a vida, junto com outras 17 pessoas, no desastre de aviação do Chitado, ali bem junto da fronteira sul de Angola, a 10 de Novembro de 1961. Um ano depois foi inaugurado um monumento no local do acidente. Não o visitei desta vez, mas ainda o espero fazer, um dia mais tarde.
O dia de amanhã, sexta-feira, o mesmo dia da semana de 1961, assinala precisamente 45 anos passados sobre o acidente. Também amanhã tomaremos um avião para Maputo e sinto que, voando nesse dia, exorcizarei as superstições e prestarei uma casual homenagem à memória de meu avô.

53. DE PEMBA, ANTIGA PORTO AMÉLIA

Em Outubro de 1915, em plena Primeira Guerra Mundial, meu bisavô chegou à bela baía de Porto Amélia (a terceira maior do mundo, dizem os bilhetes do autocarro) integrado, como chefe dos serviços administrativos, numa expedição do exército português na campanha contra os alemães. A demarcação da fronteira Norte com a actual Tanzânia, então colónia alemã, tornara-se uma questão litigiosa desde o tratado de Berlim, 30 anos antes, e ficou apenas resolvida, pela força, em 1916, a favor de Portugal.
Meu bisavô aqui esteve treze meses. Passados pouco mais de cinquenta anos, igualmente por aqui "navegou" meu pai cerca de um ano e meio, às contas com outras guerras e enquadrado num meio militar diferente - a Armada. Nas suas memórias ele descreve Porto Amélia como "uma cidadezinha colonial engraçada, bem rodeada de aldeias de pescadores". Quarenta anos volvidos, aqui estamos nós numa breve estada de três dias, sem nada a combater, a não ser a ânsia do regresso que se aproxima.
Pemba é hoje bem distinta dos tempos de meu bisavô e de meu pai. Não lhe noto nem a graça, nem as aldeias de pescadores. Noto sim, uma urbe bem extensa, transportes públicos novos (ouvimos a notícia da sua inauguração na rádio há 8 dias), um centro de negócios, uma degradada zona residencial ex-colonial onde se localizam as principais instituições, uma actividade pesqueira (aqui sim, ainda tradicional), e um franco desenvolvimento recente no sector do turismo.
Pela marginal da Praia de Wimbi, a 5 Km da cidade, vão proliferando beach resorts de diversas categorias (entre 3 e 5 estrelas, vá lá). Percorremos todas as opções disponíveis e acabámos na mais económica, o Complexo Náutilus, num Challet junto à areia a 40 dólares com pequeno-almoço.
Ontem decidimos os próximos passos. Desistimos da ida às Ilhas Quirimbas (por onde meu pai viveu alguma peripécias). Ali, os tempos também são outros e hoje, das muitas ilhas e ilhéus selvagens que compõem o arquipélago, já se contam cinco ilhas privadas com resorts de luxo. Das habitadas, a Ilha de Ibo é a única "pública", e alberga população numa antiga vila colonial. Atingir Ibo seria possível mas extremamente cansativo (5 a 10 horas de "chapa" mais um trasfegue de barco se a maré permitisse). Na volta, o mesmo esticanço...Não obrigado! De ilhas já temos a de Moçambique e Likoma, e por aqui ficamos.
As tarifas de fim-de-semana das Linhas Aéreas de Moçambique (LAM) revelaram-se simpáticas e como "espírito beach resorter" não é a nossa especialidade, antecipámos a ida até Maputo para sexta-feira. De lá, teremos ainda uma semana para gastar até regressarmos a Joanesburgo.




casa da justiça, centro de negócios, old town; pela marginal até à praia de Wimbi, complexo Náutilus, aldeias de pescadores

07 Novembro 2006

52. Fotos sobre como chegámos nós a Pemba

e flashes de como nos instalámos na Praia de Wimbi


(atenção post longo)


Por incrível que nos tenha parecido, foi mesmo à cidade de Pemba que viemos dar depois da que foi, de todas, a viagem mais dura. Foi uma progressão lógica (nenhuma surpresa, portanto) no crescendo de emoções que temos vindo a experimentar nestes trajectos em transportes públicos sobre vias moçambicanas.
Km 0, Ilha de Moçambique
E se começou bem esta viagem! Acordámos pelas duas da manhã para apanhar o "chapa" das 3 que não passou. (Entretanto vimos o Malato no 1 conta todos na RTPi - ai saudades!). Só às 4 seguimos numa outra Hiace que nos deixou do lado de lá da ponte para a Ilha de Moçambique. Tresandava a peixe seco lá dentro. A saída da Hiace foi feita ao gosto do freguês: ou por uma das janelas, ou saltando sobre os bancos da frente, pela habitual porta de correr é que não. Estava perra e nem três homens a demoveram!
Km 3
De novo transbordo para um autocarro de 25 lugares, idêntico ao da vinda (o tal demasiado largo para caber na ponte), mas que desta vez só esperou que "patrão [o meu] foi mijá!". Lá nos voltámos a arrumar, 5 rabos em 4 lugares e o meu ficou com metade no ar. Arranjado um calço apropriado até conseguimos dormir, embalados pelos solavancos da estrada e pelos pios de uma galinha, passageira num lugar mais dianteiro.
Km 123, Namialo
Paragem para trocar de autocarro e assistir à colocação de duas cabras, vivas, no tejadilho de outro (talvez fosse para o jantar: ummmmm souflé de chèvre!).
Horários de ligações entre autocarros ainda não há em Namialo, tampouco há uma paragem-abrigo. Esperámos à sombra das nuvens, comprámos cajú torrado (castanha, chamam-lhe aqui) e presenciámos as frenéticas vendas de que iam sendo vítima as Hiaces, as Pick Ups e os Buses que ali paravam. A mercadoria com mais saída eram os pacotes de bolacha Maria ou Waffles mas as alternativas abundavam: castanhas torradas, ovos cozidos, garrafas de "Coca-Fanta-Sprite", alguma água, pacotes de sumo Santal Tropical, sandes incógnitas (de ovo mexido de um amarelo excessivo) e uns caseiros torcidos fritos, vendidos num alguidar à cabeça de uma menina. Fora da área alimentar vi passarem óculos de sol, conjuntos de perfumes, um único desodorizante Fá Roll-on (várias passagens, não devia ter saída), mas o mais inesperado de tudo foram uns almofarizes e respectivo pilão em madeira (quem ali teria uma máquina de tornear capaz de fazer aqueles objectos? de onde viria aquilo? pois, da China calculo!).
Uma hora depois, quando o autocarro com destino a Pemba chegou, foi um apertão para que vendedores, compradores, passageiros com bagagem entrando e passageiros com bagagem saindo, conseguissem vender, comprar, entrar e sair.
Para nosso azar os lugares sentados estavam já esgotados mas, por sorte (para a empresa Grupo Mecula) os bilhetes não! Seguia entrando quem quisesse, nós quisemos e entrámos.
Não demorou muito para que o Quico se apercebesse que o telemóvel já não estava no bolso das calças (recuso-me a comentar que tipo de bolso se trata). E não tendo o telemóvel pernas próprias foi-nos fácil concluir que o haviam surripiado nos apertos à entrada. Nada a fazer, pelo menos ali, pelo menos para já. Far-nos-á falta o tlm, tem o roaming activado, mas era dos vários objectos electrónicos que transportamos aquele que menos importava perder.
Km 125
Resignados com a súbita leveza do nosso lastro, aparcámo-nos de pé, na coxia, logo à entrada. Eu tinha à justa espaço para assentar os meus dois pés de botas calçadas e largura, à altura dos ombros, para esticar os dois braços e me segurar nos arrumos superiores. Encostava-se a mim uma filha, amarrada às costas da mãe. Desconfortável, a progenitora mudava sistematicamente as posições do lenço (já tinha perdido um sapato à miúda) e nesta sua insatisfação lá ia eu apanhando com a carapinha palhuda da miúda nas minhas costas. A dada altura a criança reparou que eu era branca. Arregalou os olhos e fixou-os em mim.
Do outro lado, no chão, havia uma trouxa. Sobre ela uma caixa plástica rectangular e, no topo, uma senhora sentada que segurava, e esmagava, a pilha entre as próprias pernas.
No banco, para onde eu estava virada, sentava-se uma família de mãe com filha ao colo e pai. O casal era novo e parecia ter um relacionamento que raras vezes vi por aqui. O normal é encontrar mães sozinhas, de produção mais ou menos independente e porque "estão em boa altura de ter um filho". Estes três, por seu lado, aparentavam ser uma família constituída com intenção das que perspectivam um futuro em conjunto. Viriam talvez da cidade de Nampula com uma mentalidade social mais urbanizada. A dada altura o marido adormeceu de boca aberta. A mulher tentou fechá-la duas ou três vezes mas sem sucesso. Abanou o homem, acordou-o e explicou-lhe em jeito terno que "ássim podi entrá mosca... fórmiga..."
No banco à frente deste uma outra mãe só, de filho ao colo. Os dois com o mesmo beiço de um carnudo castanho claro com arestas bem vincadas. Os dois a dormir. O miúdo, em tronco nu, arrumava as suas mãos dentro do decote largo da mãe segurando-lhe as mamocas.
Bem embrenhada ia eu dentro deste pulsar de África que me distraía do desconforto de estar a viajar em pé, apertada e desagradavelmente perfumada.
Mas há que reconhecer que até aqui o dia nem tinha corrido assim tão mal.
Km 151
Foi depois que a coisa "doeu". Depois: quando a revisora-mandona nos convidou a sentar próximo de si, numa zona ligeiramente elevada, de plástico (provavelmente de protecção a uma peça mecânica qualquer), que separa o espaço do motorista.
Passámos a ir sentados, é certo, mas também apertados e de nádegas directamente no duro. Encontrar uma posição era de todo impossível. O espaço para os pés tinha de ser esgravatado entre bagagem e pés descalços. O tronco caberia de lado ou entalado. Pés-pernas, mãos-braços-ombros dormentes, e um perfume mais concentrado e quente que o anterior.
Parece-me que aqui se está habituado a deixar o corpo encostar-se até que se ampare seja ao que for: bebés amarrados às costas das mães com a cabeça à banda; mulheres e crianças sentadas em monte partilhando a sombra de uma árvore; ou as crianças que se sentam no chão deste autocarro e dormem sobre trouxas ou se enrolam amparadas por si mesmas! Ora eu, que na minha terra tenho uma esfera pessoal sobredimensionada, senti-me mesmo bem com o cotovelo e o joelho de um nas costelas, com o calor febril do outro nas costas, com as ancas de um macho (e se tivessem sido as de uma Tia Moçambicana?) sentado à sua própria vontade espremendo uma das minhas coxinhas, e isto para não falar nas suspeitas manchas brancas na cabeça rapada de um dos miúdos a meu lado que, inevitavelmente, lá ia pendendo sobre mim.
O meu rabiosque, já nada bem tratado pelos assentos de buses anteriores, ganhou em cada bochecha dois vergões de um vermelho abrasivo que me condicionaram o sentar nos três jantares sequentes a isto.
Km 203
Para desmoer, por várias vezes nos levantámos e seguimos um pouco de pé. Mas nem sempre havia espaço para todos. É que ali à frente ficavam também os passageiros volantes, de pé, qualquer que fosse o seu estado ou condição: mulheres com crianças de colo ficavam de pé; mulheres velhas com dificuldade em andar ficavam de pé; crianças ficavam de pé, ou arrumadas no chão tal como as trouxas; passageiros carregados ficavam de pé, carregados. Lugares de simpatia para algum destes necessitados não havia. Nem o houve quando entrou um tipo que se arrastou à força de braços pelos degraus do bus, com a perna engessada até meio fémur. Creio que se arrumou entre gentes e bancos, apoiando-se, sem canadiana ou bengala, na sua própria perna engessada. Ia para o hospital.
A resignação com que estes moçambicanos aceitavam seguir dentro daquele autocarro impressionou-me. Assim o serão eles em cada autocarro e todos os dias da sua vida. Ouvi-os dizer: "o que interessa é chegar, o que interessa é chegar...".
Km 222
A cada paragem o ritual repetia-se e agonizava-me a paciência. Tínhamos de dar passagem aos que saíam com bagagens e aos que entravam com bagagens (e constatar que subtrair estes últimos aos primeiros nunca dava um número natural positivo). Tínhamos de esperar que vendedores e compradores acertassem negócio e, depois, tínhamos de dar passagem às novas aquisições: bolsas de palhinha, várias; um par de pratos de vime, redondos com uns 80cm de diâmetro. E géneros alimentares: tomates, pimentos, cebola, alhos - todos em tamanho baby, concerteza - mandioca, feijão seco, amendoins. Também se vendiam galinhas, vivas coitadas, penduradas à cintura ou nas mãos como se fossem um molho de chaves. No entanto, era proibida a sua entrada a bordo, mas, pelo que vi, não a sua saída!
Numa destas paragens aquela tal família "intencional" comprou um papagaio verde dentro de uma gaiola feita de canas com 4 dedos de altura. Desgraçado do bicho, mal cabia na gaiola e seguia de bico aberto para contrariar o calor. (Ainda ouvi a mulher esclarecer que macaco não queria em casa porque mordia na minina, ao que o homem argumentou, matreiro, que macaco não mordi - ainda não teve o prazer de conhecer o babuíno que, nas Cataratas Vitória, nos tentou gamar o saco do pic-nic!).
E o ritual de cada paragem completava-se com o fecho mais-ou-menos da porta. Para tal tínhamos de esperar que dois fulanos conseguissem encaixar o topo superior do eixo da porta, em sincronia com o comando dado pelo motorista que activava o mecanismo hidráulico.
Km 291, Namapa
Paragem alongada (20 min. que foram mais). Estávamos a precisar de falar um com o outro, a precisar de comer e de verificar nas mochilas pequenas se não estaria por ali o telemóvel (nicles). Ainda assim conseguimos associar a existência de um anúncio "telefone público" à possibilidade de efectuar uma chamada para Portugal a fim de tentar cancelar o cartão e roaming do telemóvel. E com sucesso! Comemos e bebemos qualquer coisa e assim arranjámos a energia necessária para voltar a entrar naquele autocarro.
Km 307
Reparei que a gaiola de canas estava pousada ao abandono e vazia. Pensei que o papagaio sucumbira de stress ou de abafo, mas ainda ponderei que, num momento de consciência, talvez o tivessem dado à liberdade. Por esta altura o pai da família trocava anedotas e adivinhas com uma personagem recém entrada no autocarro. Um tipo de óculos escuros, acho que um-tanto-ou-quanto embriagado, um verdadeiro relações públicas a bordo que vestia uma T-shirt amarela onde se lia "Eu tenho HIV-SIDA".
Km 388, Sunate
Saída da família "intencional". Deixaram ficar a gaiola no chão.
Km 411
Com a proximidade de Pemba a revisora-mandona começou a atulhar o cockpit de géneros alimentares que ia comprando em paragens onde já ninguém descia nem ninguém entrava. O motorista ainda comentou duas ou três vezes: "Julieta, vámo já támo atrasado. Julieta, tá gostando di conversá aí? Eu também gostava descê prá conversá.Vámo!". Mas ela tinha uma lista de coisas, encomendas de outros, e concentrada fazia entrar sacos e molhos de mandioca riscando o rol e tomando nota dos valores em dívida. O dinheiro saía da bolsa dos bilhetes ou do bolso da camisa. Talvez por isto fosse a sua anterior prudência dizendo aos passageiros nunca ter troco, apesar da quantidade de meticais miúdos que recebia dos bilhetes de viagens mais curtas. (E fartou-se de obrigar a travar conhecimento dois passageiros que desciam no mesmo sítio quando mandava um deles emprestar dinheiro ao outro.)
Km 453
Percebi, por uma conversa, que o papagaio afinal tinha conseguido fugir do caniceiro e que andaria ali para debaixo dos bancos. Oh!
O da T-shirt amarela onde se lia "Eu tenho HIV-SIDA" parecia ter ficado responsável por apanhar a ave e procurava-a agora que havia menos passageiros.
Km 458
Encontrou-o. Apanhou-o com a mão protegida por um saco de plástico. Tentou empurrar o papagaio à força para dentro da gaiola mas temeu a bicada e o animal ganhou a luta e voltou a fugir, desta feita para a zona dos pedais dos condutor. Havia ali um buraco no chão. Terá escapado. Mas esperava-lhe toda a dificuldade do chassis, dos seus mecanismos que rodam, das sucções de ar, e dos outros carros.
Km 463
Chegámos a Pemba. E era mesmo Pemba!
"Cansadinhos" apanhámos um Taxi para a praia de Wimbi a 5 quilómetros para Sul.
Km 468
O challet de dois mini-quartos e uma mini-sala do Complexo Turístico Náutilus pareceu-nos caro e espaço demasiado para duas pessoas a quem bastava um quarto. O Lonely Planet recomendava o Russel's Place. E nisto pára ao nosso lado uma pick up de caixa aberta TT que pergunta para onde queremos ir. Era o Russel. Deu-nos boleia até ao Place que afinal ainda era longe (olha se nos tivéssemos metido a fazer isto a pé! Nunca mais cá chegávamos e "cansadinhos" que estamos...)
Km 472
Só há campismo e dormitórios, os challets estão todos ocupados. Quando vagam? - perguntámos considerando a hipótese de aguentar dormir na tenda uma ou duas noites. Ah pois, isso não sabemos. Venham ver os dormitórios. (Fomos). Não nos sabe dizer quando vaga um challet? - insistimos na pergunta. Ah pois não, queriam mesmo um challet? Era, ciao.
E como tem vindo a ser hábito aqui, à simpatia na recepção segue-se a indiferença na despedida. Fomos a pé. Pedimos boleia ao primeiro que não parou. Não pedimos mais. Ninguém parou. Continuámos a pé, pela estrada de areia mole, de mochila às costas, ao calor.
Km 476
O Complexo Caracol e a Residencial Liz não se verificaram mais baratos do que o Complexo Turístico Náutilus, o único assente nas areias da praia. Foi lá que ficámos.
"Cansadinhos" ainda fomos a tempo de ir a banhos na pequena praia do Wimbi, ao pôr-do-sol que não se afogou no mar..

06 Novembro 2006

51. PARTIDA DA ILHA DE MOÇAMBIQUE

Amanhã, terça-feira, vamos bater anteriores recordes e acordar às duas e pouco (meia-noite e pouco nos relógios portugueses devidamente actualizados com o horário de Inverno). Às três passa um "chapa" à nossa porta e antes contamos mesmo tomar um mini-pequeno-almoço.
Rumamos ainda um pouco mais para norte, até à cidade de Pemba, naquela que (espero) deve ser a nossa última jornada de "expressão africana". Queremos chegar ao arquipélago das Quirimbas mas não sabemos se o conseguiremos, podemos sempre ficar de papo para o ar nas praias da baia de Pemba.
Certo é que, com a chegada à Ilha de Moçambique cumprimos o objectivo de, por terra e água, chegar do Pacífico ao Índico. Cansados que estamos, e com o tempo disponível a encurtar-se, decidimos tomar um avião de Pemba directamente para Maputo (domingo ou segunda-feira). Assim sendo, não passaremos na cidade da Beira mas mandaremos beijinhos e faremos, se possível, bonitas fotos aéreas.

05 Novembro 2006

50. ILHA DE MOÇAMBIQUE REDUX

Em 1966, o governo português organizou o II Congresso das Comunidades Portuguesas em Moçambique. Os trabalhos abriram na universidade de Lourenço Marques e prosseguiram a bordo do paquete Príncipe Perfeito, navegando ao largo da costa, para encerrar com grande pompa histórica na Ilha de Moçambique.
Meu (Quico) pai, na altura embarcado na fragata Álvares Cabral que recebeu o paquete nestas águas do norte e acompanhou-o a fundear na baía do Mussuril, frente à Ilha, assistiu a estas comemorações. Eis como ele recorda a Ilha de Moçambique nesse preciso momento:


“tratava-se de um cenário urbano-natural maravilhoso. Além da enorme fortaleza do Séc. XVI, uma arquitectura colonial anglo-portuguesa, uma urbanidade arabizada e um bairro de casas de adobe caiado com coberturas de colmo, bem africanas, faziam daquela cidade um feliz acaso de 'encontro de civilizações'.
E a baía, pejada de grandes e médias embarcações à vela, daquelas que desde há séculos percorriam a costa oriental de África, o mar Vermelho e o golfo Arábico até à costa de Malabar, enquadrava este cenário de uma maneira fantástica. Esta era a visão 'macro' que os nossos olhos podiam abarcar. Porque na 'micro', éramos capazes de descobrir a mãe preta, na praia, amamentando a sua criança e catando-lhe os bichos do cabelo, ou um barbeiro dentro de um bote, bamboleando ao sabor da mareta, a rapar o crâneo de um cliente com uma lâmina de barba entre os dedos!
Eu tive a oportunidade de esquadrinhar a cidadezinha antes e durante aquelas celebrações, em que a administração portuguesa caprichou em mostrar aos congressistas – sobretudo aos luso-americanos, aos comendadores do Brasil, etc. – a melhor faceta da sua obra colonizadora. E, não tendo quaisquer obrigações de serviço, pude deambular à civil sem me fazer notar no meio de tanta e tão diversa multidão. É que tinham acorrido chefes gentílicos e as suas gentes, vendedores de toda a sorte de produtos e bugigangas, batuqueiros e tocadores de estranhos instrumentos musicais, faquires e cipaios, embarcadiços e mulheres, garotos e muezines. Os odores eram inebriantes, numa atmosfera de casbah.
Mas a encenação ocidental, quase 'hollywoodesca', estava bem montada. Feito o desembarque dos congressistas, organizou-se um impensável desfile de rikchós (puxados a braço, claro), talvez perto de uma centena, para percorrer e mostrar a cidade aos visitantes, pois não havia automóveis na Ilha e era preciso criar um ambiente folk.”



Este excêntrico e espalhafatoso acontecimento terá sido talvez o cume da vivência humana na Ilha de Moçambique nos últimos séculos. Passados 40 anos as diferenças são grandes. A ilha está agora ligada ao continente através de uma ponte e, portanto, já circulam automóveis. As ruas é que estão ainda longe de estarem preparadas para os receber de maneira adequada. Resumindo, apesar de existirem algumas excepções, o ambiente geral é de abandono, degradação. Em 1991, o ICOMOS recomendou a inclusão da Ilha de Moçambique na lista dos lugares Património da Humanidade à Unesco. Foi aceite. Fundos foram disponibilizados mas os resultados não estão à vista… Por agora, resta-lhe aquele encanto que acompanha a ruína, e esse, é muitas vezes preferível ao desencanto de certas recuperações!


Anexo: parte do relatório de Junho de 2006 do The World Heritage Committee


Noting with great concern that the Island of Mozambique continues to be threatened by the serious degradation of its historical monuments, the lack of a detailed architectural survey, the lack of conservation, management and planning mechanism, capacity and sanitation problems,


Further noting the results of the joint World Heritage Centre/African Development Bank (AfDB) mission for developing a sustainable development programme for the World Heritage property,


Strongly encourages the State Party to appoint a site manager, to complete the conservation and management plan and to identify appropriate governance processes and structures;


Requests the State Party to submit a report to the World Heritage Centre, by 1 February 2007, on the progress made in the rehabilitation of the San Sebastian Fortress, the development of the UNESCO-AfDB Programme, and the finalization of the conservation and management plan, for the consideration by the Committee at its 31st session in 2007;


Further requests the State Party to invite an ICOMOS mission to the property in 2007 with the view to evaluate the state of conservation of property and to make recommendations to the Committee for consideration at its 31st session in 2007.







o Norte nobre da Ilha, os rikchós agora em exposição, o palácio de S. Paulo, a fortaleza de S. Sabastião

49. Swahilis

A palavra swahili deriva do Árabe e significa algo como "residente costeiro". Estima-se que hoje em dia, entre 300 e 700 mil pessoas sejam swahili ou portadores da cultura swahili, digamos assim.
A sua origem remonta ao século IX, período em que mercadores muçulmanos vindos do Golfo Pérsico estabeleceram rotas marítimas comerciais com a costa Este de África. Ao ritmo dos ventos da monção (Norte-Sul no início da Primavera, Sul-Norte no início do Verão) navegaram frotas; trocaram-se tâmaras, especiarias e ouro por madeira, marfim e escravos; misturaram-se raças; desenvolveu-se uma lingua; implantou-se uma religião; gerou-se uma cultura costeira...


O som da ondulação nas rochas e na areia era tão límpido e delicado quanto o eram a água e a calmaria daquela manhã de maré baixa. Ghanjah e Baghlah conduziam o barco por entre os baixios até nós, que aguardávamos, com a água pelos tornozelos, junto ao baluarte Norte da fortaleza de D. Sebastião, na Ilha de Moçambique. Em pé, equilibrados entre a borda e os bancos, empurravam o veleiro de velas arreadas com varas de três metros, cravando-as compassadamente no fundo do mar. Djambo estava connosco na margem e ia instruindo gestualmente os homens dos paus. Foi com ele que acertei o negócio antes do pequeno almoço: 1000 meticais para nos levar e trazer, de barco à vela, à Ilha de Goa, um ilhéu faroleiro a umas cinco milhas de distância.
Subimos a bordo e Djambo assumiu de imediato a posição de comando do leme, enquanto que Ghanjah e Baghlah continuavam o jogo do vara-pau. Logo que a profundidade dos rochedos e corais deixou de ameaçar o casco, içámos a vela. Uma leve brisa foi suficiente para enfunar a dita-cuja e fazer-nos progredir suavemente numa bolina larga.
A hierarquia da tripulação esteve sempre bem definida. Djambo "capitaneava" e dava as ordens que, Ghanjah, "o imediato" e Baghlah "o grumete", seguiam sem hesitações. Djambo era de carácter reservado, mas gostava de ser ele a responder às minhas questões, mesmo quando estas eram dirigidas aos outros tripulantes. Ghanjah mostrou-se um envergonhado de gargalhada fácil e Baghlah revelou um facies carrancudo interessante. Entre eles falavam swahili e connosco um português altamente simplificado e gestual. Não lhes averiguei das idades (e é sempre arriscado adivinhá-las em indivíduos de raça negra) mas não creio que estes rapazes tivessem mais do que vinte anos. Baghlah era decerto ainda um adolescente.
Se em Djambo apreciei a sua responsabilidade e profissionalismo no cumprimento do acordado, já Ghanjah me conquistou tanto pela sua simplicidade de trato, como pela força esguia das suas manobras marinheiras. Todavia, foi o enigmático Baghlah o personagem mais fascinante. Sempre compenetrado nas suas tarefas, nunca saiu do seu posto. De regresso à Ilha de Moçambique, nesse dia ao anoitecer, passámos pela praia e lá estava ele, fundeado ao largo, único tripulante do "navio" a acenar-nos "Olá"!
O vento corria pobre e os dois swahilis de ranking mais baixo, remavam. Num dos bordos, Djambo trocou de lugar com Baghlah com o intuito de aumentar a cavalagem do remar e disse: "é pra chegar lá!...Agora!" No bordo seguinte ofereci-me eu para remar. Passados dez dias, enquanto escrevo estas palavras, acaricio a cicatriz no meu polegar direito resultante daquela minha oferta - ao fim de 10 remadas já tinha feito uma bolha que ao cabo de 20 já estava rebentada.





a calmaria da maré baixa, Baghlah e o jogo do empurra, Baghlah e Djambo; a tripulação: Djambo, Ghanjah e Baghlah; o enigmático Baghlah fundeado ao largo


Dhow. É este o nome destas embarcações de tradição árabe, cuja principal característica é a sua armação vélica e a forma triangular destas. São barcos variáveis na sua dimensão, desde simples canoas escavadas de um tronco de árvore com um flutuador lateral (tipo catamarã), a veleiros de complexos cascos de madeira com 15 metros de comprimento e capacidade para 30 tripulantes.
O dhow onde seguiamos deveria medir aí uns 8 metros e era incrivelmente rústico. Suspeito que as ferramentas que o construíram seriam extremamente rudimentares. Poucas serras passaram por ali. Praticamente, não existem samblagens (encaixes) entre as peças de madeira constituintes do casco. Chamar tábuas às placas que cobrem o esqueleto do bicho, e que nos amparam da água, é um "eufemismo"! Tudo foi pregado, umas coisas em cima das outras. As peças curvas, tão necessárias ao hidrodinamismo das formas do barco, são autenticamente ramos de árvore contorcidos (escolhidos a dedo os que melhor se adaptaram à função desejada). Esta rudeza construtiva deveria resultar num conjunto grotesco mas, surpreendente, não resulta. O barco é equilibrado, elegante mesmo e cumpre decerto as formas "regulamentares" dos standards da região. Na minha cabeça penso que este barco já deve ser bastante antigo e fico boquiaberto e desconfiado quando Ghanjah me diz que tem 2 anos, que o construiu ele próprio em 3 meses, que deu muito trabalho e que o fez maior para poder levar mais turistas, porque os dhows da pesca não precisam de ser tão grandes.
Em vagarosos ziguezagues fomo-nos aproximando da Ilha de Goa e, com ela, novamente de baixios. De vela arreada, repetia-se o processo das varas, só que desta feita dificultado pelas vagas de mar aberto que, apesar da calmaria, nos balançavam pronunciadamente. A manobra parecia arriscada, mas a tripulação fez ponto de honra em nos deixar mesmo na areia. Lá avançávamos, habilmente serpenteando por entre as rochas, até esse objectivo. Cumprido!
Dos passageiros, só a inglesa Becky, com quem partilhámos o aluguer da barcaça, não estava radiante - enjoou valentemente! Ali chegámos, movidos por forças motrizes elementares, à mercê de saberes tão velhos apreendidos por swahilis tão jovens...


Estas travessias oceânicas, que se estenderam da Índia ao Sul de África (os descobrimentos Árabes) revelaram, seis séculos antes das nossas caravelas, uma astúcia marinheira muito avançada. Interessante e ao mesmo tempo desolador é que, passados 12 séculos, a cultura swahili persiste, mas como que estagnada no tempo (não se efectuam as mesmas rotas comerciais de outrora mas pratica-se uma economia de subsistência baseada, obviamente, na pesca).
Desde o século XVI, os swahilis "levaram" com portugueses, ingleses, holandeses e alemães, vindos de terra e de mar, e mantiveram-se impenetráveis na sua identidade. Isto para um povo que resulta da mistura da raça árabe com a africana, diz algo sobre o interesse que a cultura ocidental por aqui despertou: "com esses não nos misturamos nós!".





no lago Malawi: um elegantíssimo dhow de duas velas, uma canoa de tronco, um dhow com velas de sacos de arroz ao amanhecer; a rusticidade do nosso dhow; a chegada à Ilha de Goa e a vista do farol sobre o ilhéu com a Ilha de Moçambique ao fundo

04 Novembro 2006

48. SPLURGE!

Após as privações pelas quais temos passado (nos últimos dez dias não tivemos: quartos com casa de banho, casa de banho com água quente, casa de banho com tecto, casa de banho com água corrente, espelho, colchões que não encovem ao meio, lençóis de confiança, janelas com redes, quarto sem formigas, outros insectos ou surpresas) instalámo-nos como reis na Casa de Hóspedes Mooxelelya ("como dormiste?") da senhora Flora Magalhães - que, ao que pudemos entender, é uma empreendedora mulher na reabilitação da ilha através do ramo de hotelaria e turismo.
Por 17 euros temos direito a um grande quarto numa antiga casa colonial recém-recuperada. Temos uma cama alta com estrutura para dossel, casa de banho no quarto com chuveiro e ainda manípulo suplementar para lavar os pés e as pernas do pó da rua, temos uma secretária de madeira com gavetas e cadeira, uma ventoinha de tecto e duas janelas com dois banquinhos laterais, em alvenaria, em cada um dos vãos. Podemos utilizar as salas comuns frescas à hora do calor e temos pequeno-almoço incluído. Temos também o senhor Abdul, de pernas arqueadas, que é quem faz tudo por aqui.
Lembro-me de uma conversa tido com um amigo, no especial jantar de aniversário de seu irmão. Começo a concordar contigo, falta-me a paciência para abdicar do luxo que é o simples conforto.
Atenção, não se apoquentem os leitores, não tem sido por razões económicas que nos temos privado de alojamento mais confortável. A questão é que não o temos tido nem à mão, nem ao pé.

47. CHEGADA À ILHA DE MOÇAMBIQUE

De Nampula até à Ilha de Moçambique tomámos um tradicional autocarro africano, daqueles descritos nas antevisões sábias de um nosso comentador de serviço logo aquando do início destes relatos. Na verdade, desde os buses da Greyhound ou da Intercape que rodam sobre as estradas da África do Sul e da Namíbia, os serviços rodoviários têm vindo a ganhar "expressão africana".
Entrámos no autocarro, devidamente estacionado ao sol, e aí esperámos que enchesse bem para além dos 25 bancos que ocupam a totalidade do seu interior. Este autocarro consegue funcionar sem coxia graças ao facto do segundo banco de cada fila ser rebatível. Os passageiros vão entrando, arrumando-se primeiramente nos bancos traseiros. E ao mesmo tempo, no tejadilho empilha-se de tudo e na bagageira esborracham-se outros haveres. Quando hora e meia depois partimos, em vez de 25 íamos cerca de 40. Em cada fila de 4 apertavam-se 5 passageiros, à frente sentavam-se outros extra e, já com o autocarro em movimento ainda entraram meia dúzia de homens que ficaram em pé, pendurados como um cacho, no espaço deixado livre pela porta aberta. E foram 4 horas assim, de rabo num banco mais duro que uma tábua, sem conseguir mexer as pernas, apanhando bofetadas de vento com pó que cheguei a trincar entre os dentes.
A travessia para a Ilha de Moçambique é feita através de uma comprida ponte com uma só faixa de rodagem e bolsas laterais de tantos em tantos metros que possibilitam o cruzamento de veículos. O autocarro em que seguíamos era demasiado largo para atravessar a ponte. Fizemos então transbordo para uma carrinha pick up de caixa aberta acabadinha de vomitar (de manga) por uma criança. Passageiros, em pé de igualdade com bagagens, empilharam-se conforme o espaço que havia na caixa aberta. Já em andamento, na mecha, as pálpebras fugiam-me dos olhos, o cabelo chicoteava-me a cara e até me custava a respirar.
Entre alguidares, colchão de corpo e meio, sacos de arroz e cabeças alheias, quase não reparávamos nos finos coqueiros que espreitam sobre a restante vegetação, nos tanques de extracção de sal, nas margens da ilha (afinal) rochosas ou com paredão de pedra, ou no azul-verde-claro do Índico com os seus curtos carneirinhos.



ao molho no mini bus; ao molho na pick-up

03 Novembro 2006

46. PARALELO 14 S




Zâmbia, Malawi, Moçambique: aldeias rurais em terra - adobe (adobe) e tabique (wattle and daub)

45. CUAMBA - NAMPULA DE FERROCARRIL

Moçambique tem, para a sua dimensão e condição africana, uma extensa rede ferroviária. Olhando no mapa constatamos: no Sul, ligações de Maputo a Joanesburgo e a Bulawayo; no Centro, da Cidade da Beira a Harare e a Blantyre; e no Norte, de Nacala a Lichinga. Se, no mapa, nos regozijamos com a extensão das linhas, "fora dele" ou seja no terreno, decepcionamo-nos com a realidade encontrada. A maioria das linhas ferroviárias encontram-se desactivadas (muitas destruídas em consequência dos anos de guerra civil), e as que ainda não o estão, apenas efectuam ocasionais serviços de mercadorias.
Assim, não se perspectiva grande futuro, a médio prazo, no mundo dos carris. O que é facto é que não é uma prioridade governamental, e percebe-se bem. O transporte rodoviário é mais rápido e mais barato de desenvolver, e a economia de mercado dos automóveis colectivos em Moçambique, como em toda a África, impôs-se desde os dias das independências e é, agora, quase cultural.
Excepção a este destino e exemplo de resistência, é a ferrovia Cuamba-Nampula. Entre estas duas cidades efectua-se um comboio de passageiros, dia sim, dia não. Há dois anos era um serviço diário, mas uma inundação provocou um acidente onde ser perderam duas locomotivas, desta forma reduzindo o stock a um único comboio disponível, que agora funciona em contínuo vai-e-vem.
Na passada segunda-feira partimos às cinco da manhã de Cuamba. O dia amanhecia luminoso. Que deslumbramento de paisagem aquela que rodeia Cuamba e todo o resto do caminho! Uma planície verdejante pontuada por rochedos gigantescos rompendo a terra com formas extraordinárias. Sentimo-nos como que a olhar para um futuro parque nacional fabuloso. Cuamba tem às suas portas um Torres del Paine em potência!
Perguntei a um passageiro se esta linha também acabaria logo que a péssima estrada existente fosse recuperada ao que ele respondeu que não. Que as pessoas já se habituaram ao comboio, que nas paragens se comercializam mangas e cebolas e tomates, e que, portanto, não deve acabar. Seria impopular.
Assim o esperamos também nós, a bem da diversidade e da salvaguarda da memória de outros tempos; a bem de um sinal de evolução no universo de subdesenvolvimento que, convenhamos, caracteriza o sistema rodoviário dominante.




o amanhecer no torres del paine de Cuamba; janelas abertas e fechadas

44. NA RESTHOUSE WILL SANJEWE, EM LICHINGA

O despertador tocou às 4:10 da manhã. Queríamos sair cedo para assim apanharmos um dos chapas que diariamente rumam a Cuamba e que começam a sair pelas 4:30.
Levantei-me, acendi a luz do quarto, vesti-me e calcei-me. A Jota estava ainda na cama quando, alguém bate à porta. Deviam ser umas 4:20. Pensei que era o segurança da pensão a avisar-nos da saída eminente de um chapa (um alarmismo recorrente nas gentes de aqui, a que já nos vamos habituando). Entreabro a porta e sou surpreendido pela visão de uma pistola, bem junto da minha cara, na mão direita de um homem prestes a iniciar um gesto silencioso mas ameaçador. Reajo instintivamente e em terror. Estou tão perto da pistola que num grito “Não!” me lanço ao homem, segurando-lhe a mão armada e empurrando-o violentamente pelo estreito corredor afora! Durante todo este percurso de cinco ou seis metros em que nos debatemos corpo a corpo pelo corredor, olhei sempre o cano na pistola, tentando manter-me esquivo do seu alcance em caso de disparo. Não sei descrever como nos despegámos, apenas recordo que no fim do corredor o assaltante se retirou em fuga por uma antecâmara. A Jota, que entretanto tinha saltado da cama e semi-nua corrido o corredor nas minhas costas, vendo-me solto do homem, alerta-me para regressarmos rapidamente ao quarto.
Fechamo-nos à chave. Sento-me na cama a hiperventilar. Entre nós, tentamos perceber os acontecimentos e decidir um rumo de acção (a Jota não tinha visto a arma e pensava-me arrastado pelo malfeitor). Apesar dos gritos (meus e da Jota) que sonorizaram os 5 segundos que deve ter durado a cena, nos minutos seguintes não se ouviu vivalma. Segurança ou hóspedes...népias.
Pensamos em tudo. Será um ataque concertado com o(s) responsável(eis) da pensão? Telefonamos à polícia? O telemóvel tem rede. Não temos número. Talvez o lonely planet tenha o geral de Maputo. Não tem. A Janela tem grades. Não podem entrar por lá, mas também nós não podemos sair. Se forçarem a porta arrastamos a cama contra ela. Resolvemos arrumar a toda a bagagem e esperar o clarear do dia. Fechamos a luz.
Pelas 4:40 era altura de agir. Abro a porta do quarto e saio de canivete suíço em punho, enquanto a Jota se barrica novamente no quarto com as bagagens. Movimento-me rapidamente. Pelo caminho até à saída não vejo ninguém e encontro na recepção o segurança a dormir enrolado num cobertor. Acordo-o. Relato-lhe sucintamente o sucedido ao que ele, parecendo surpreendido, responde “não fui eu...”. Peço-lhe que me acompanhe até ao quarto. De volta ao corredor do incidente, examinamos a antecâmara por onde saiu o assaltante e verificamos que se liga a um pátio exterior e que o portão não tem fechadura. O segurança desculpa-se. “Foi por aqui que deve ter entrado, não tem cadeado, tem que se fechar isto, nunca tinha acontecido antes”. Nem quero saber mais, voltamos ao quarto onde a Joana nos esperava de sobreaviso. Mochilas às costas e escoltados pelo segurança saímos para a rua à procura dos chapas para Cuamba. Não queremos ficar um segundo mais por ali. Percorremos 30 metros pela rua do mercado e logo aparece uma hiace com o cobrador empoleirado gritando “Cuamba, Cuamba!”. Fazemos sinal, inquirimos do preço e saltamos lá para dentro, despedindo-me com desdém do infeliz segurança da pensão.


A realidade é que nunca saberemos o que de facto de passou naquela madrugada. Terá o segurança sido conivente? Ou cúmplice terá sido o taxista que nos transportou de Metangula e que simpaticamente nos recomendou aquela pensão e sabia o número do nosso quarto? De desconfiar foi também o hóspede que na noite anterior nos bateu à porta “por engano”. Estes cenários conspirativos não nos apagam a certeza que fomos alvos escolhidos pela nossa condição de brancos/estrangeiros suficientemente ricos de bens ou dinheiro e portanto merecedores de arriscar aquela manobra.
Para nossa sorte, a qualidade do plano e execução do ataque não abona do profissionalismo do(s) assaltante(s). Porquê esperar que a luz do quarto estivesse acesa para bater à porta? Seríamos mais surpreendidos se estivéssemos a dormir. Como é que um homem armado se deixa enxotar com uns empurrões? Pode muito bem ter sido uma coisa de um amadorismo tal que o perigo nunca foi assim tão eminente.
Em Cuamba, notificámos a autoridade. Fomos acolhidos com compreensão e razoabilidade pelo chefe da polícia, o que nos sossegou bastante. À nossa frente, comunicou de imediato com seu congénere de Lichinga para este investigar a Resthouse Will Sanjewe e assim evitar futuros incidentes. Recordo-o a relatar o acontecido ao colega pelo telemóvel e referir-se a “um cidadão armado”... estranha forma de cidadania.
Para nós, as consequências práticas deste percalço foram nenhumas. As físicas poucas (uns arranhões e nódoas negras dos encontros nas paredes do corredor). As psíquicas nem tanto. Essas, marcaram (e marcarão decerto) pontos. Sabemos é que temos de viver com elas.
Como preparação para esta viagem tinha-me consciencializado duma eventualidade deste tipo mas sempre numa lógica de não resistência: “Podes levar tudo, não nos faças é mal por favor”. Assusto-me quando penso na minha reacção instintiva de agressão. Foi-me novidade. Senti-me pela primeira vez a lutar pela (nossa) vida e fi-lo com todas as minhas forças, como um animal.

02 Novembro 2006

43. VELOCIDADE DE CRUZEIRO

“The Nellie, a cruising yawl, swung to her anchor without a flutter of the sails, and was at rest. The flood had made, the wind was nearly calm, and being bound down the river, the only thing for it was to come to and wait for the turn of the tide.”
primeiras frases de Heart of Darkness, Joseph Conrad, 1902


“The Philae, a river cruiser, lay aslant of the bank, captive in her mooring lines in the winter sunshine at Aswan on the Nile.”
primeira frase do capítulo 3 de Dark Star Safari, Paul Theroux, 2002


O Ilala, um navio de cabotagem, anunciou a sua vagarosa chegada com um silvo interruptor da calmaria da tarde quente e fundeou ao largo, em Chipoka no Lago Malawi.


Este pretensioso malabarismo plagiado é uma graça que evoca o misticismo que a navegação “por esse rio acima” rumo ao desconhecido em tantos de nós despoleta. Para além dos dois extractos literários acima mencionados, ocorrem-me à cabeça os filmes The African Queen de John Houston e Apocalipse Now de Francis Coppola (adaptado do romance de Conrad) ou ainda a jangada de Huckleberry Finn cruzando-se com os barcos de propulsão por roda traseira no Mississipi.
No Ilala (nome do local onde morreu David Livinstone), não viajámos nem num rio nem propriamente rumo ao desconhecido. Este navio de 620 toneladas, misto de carga e passageiros, sobe e desce o lago Malawi todas as semanas. Parte de Monkey Bay, no Sul do lago, à sexta-feira de manhã e chega domingos à noite a Chilumba, no Norte, de onde zarpa segunda-feira à tarde para estar de regresso a Monkey Bay na quarta-feira pela mesma hora. Descansa portanto um dia por semana, a quinta-feira santa. Isto se não houver atrasos, que os há, invariavelmente. É que o Ilala presta um autêntico serviço das Áfricas. Atrasado, atafulhado e inóspito ao mesmo tempo, precário, sórdido mas essencial e inevitável para uma série de aldeias ao longo do lago. Ele é o principal, e quase único, elo de ligação dessas comunidades com o mundo exterior. A este serviço público –como que social- a companhia Lake Malawi Services (detentora do Ilala) adiciona-lhe um uso misto de exploração turística e transporte de eminências. Assim sendo, as zonas de estar/comer/dormir para passageiros no Ilala organizam-se por três pisos (localizados acima do porão - para carga e máquinas).
No lower deck localizam-se: a 3ª classe (≈5 US$ full fare p/p), um espaço amplo, escuro, quente, fumegante e de capacidade ilimitada de passageiros (o record ronda os 500); a 2ª classe (≈10 US$ full fare p/p) um compartimento pequeno com bancos corridos um tanto ou quanto separado da bagunça vizinha; e umas reles instalações sanitárias contíguas a uma amostra de cozinha industrial.
O piso acima do lower deck é ocupado pelo compartimento de refeições vip (e respectiva cozinha) e pelas cabines de 1ª classe, cinco no total: quatro delas para duas pessoas e que partilham instalações sanitárias comuns (≈75 US$ full fare p/p), e uma cabine/suite com casa de banho privativa (≈100 US$ full fare p/p).
O top deck, um vasto convés parte descoberto parte coberto e separado da ponte de comando do navio por um bar, é um espaço reservado aos passageiros das cabines e aos detentores de bilhetes first class deck (≈45 US$ full fare p/p) – bilhetes estes que permitem aos seus detentores dormir ao relento sobre o tabuado.
O resultado prático desta estratificação económica é espectável e muito africano. Em baixo, um caos de pretos e pretas, pretinhos e pretinhas, sacos e sacões, cabras e galinhas, panelas de farinha, fogões a carvão, tigelas e chinelos, loiça esmaltada e feijões enlatados. Em cima, um desafogo de meia dúzia de brancos e brancas, pretos elitistas, espreguiçadeiras e cervejas, protector solar e óculos escuros.
Na nossa viagem, a meia dúzia de brancos e brancas, éramos nós e os canivetes suíços em first class deck; um casal de americanos da Florida que acompanhavam os pais de 80 anos na sua última visita ao país onde foram missionários há 40 anos, um militar alemão em férias e uma outra família americana (pai, mãe e filha) a caminho dum resort de luxo na Ilha de Likoma nas 4 cabines first class; e finalmente um sul-africano de meia-idade residente em Joanesburgo que viajava de férias acompanhado de um jovem malawi, e que se instalaram na cabine/suite first class (as mentes perversas femininas logo suspeitaram de um caso de escravidão sexual, mas eu fiquei convencido com a explicação dele - que o rapaz era filho de um sócio seu na empresa, que o ajudava porque falava a língua e que era sempre bom ter ajuda para o carrego das malas).
Além do sol, a principal distracção desta classe é assistir, duma posição aristocrática, ao embarque e desembarque dos passageiros e mercadoria em cada paragem. Apesar de estar equipado com guindaste para estivar a carga, não vimos este em funcionamento porque o Ilala não atracou a cais algum. Os transferes sempre foram efectuados ao largo. O navio dispõe de duas barcaças a gasolina que se içam nas alhetas e foi através delas que tudo entrou e saiu.





o Ilala; o top deck; o piso das cabines de primeira classe


A rotina sucedia-se. Silvava o Ilala à chegada aos cabos, anunciando o fundear. Desciam as barcaças e acostavam-se ao Ilala. Começava o carrego de bens e pessoas em tom aflitivo. Os homens fortes assumem posição de destaque ao passarem de mão em mão os carregos – malas, sacos, farinha, arroz, grades de coca-cola, galinhas, bicicletas, miúdos, mulheres, bebés, idosos, vai tudo ao monte!
Este espectáculo grotesco é apreciado pela elite branca em pose debruçada sobre a balaustrada. Entre o fascínio e a repulsa tecem-se comentários: “Ai como aquele miúdo vai ‘à banda’ lá pra dentro! Os sacos de farinha já vão rotos e estão-se a molhar! Olha, estão a discutir o preço das grades de coca-cola, não é pacífico! Na próxima paragem calha-te e ti bater ali com os costados! Naquela praia o desembarque é com a água pela barriga! Lá se vai o arroz! Porque é que não eles não constroem um pequeno cais que seja? Têm ali pedra e madeira mesmo à mão?”
E isto é assim há 50 anos, por quanto tempo mais?





as barcaças e a elite debruçada; a aflição dos transferes

42. Cuamba

A vila de Cuamba tem um computador público com internet. É daqui que finalmente podemos actualizar o nosso blog, há mais de uma semana calado. Da Ilha de Likoma, na passada terça-feira pelas seis da manhã, voltámos a tomar o ferry-boat Ilala (que agora descia o lago) para desembarcarmos em Metangula, pequeno porto já em território Moçambicano. O processo alfandegário de entrada em Moçambique fizemo-lo, sem sair do barco, quando fundeados ao largo de Cóbue. O oficial veio a bordo, carimbou os passaportes e, à conta de uma estranha taxa alfandegária, ainda nos ficou com o dinheiro que havíamos reservado para o almoço (assim acabámos com um prato de nsima e feijão de lata servido na 3ª classe).
O acto de pôr os pés em Moçambique foi feito, em sentido literal, pela água. Metangula não tem cais de embarque, o que obriga os passageiros a saírem da pequena baleeira já encalhada na areia, com as calças arregaçadas e as malas aos ombros. Foi uma bela entrada, uma bela banhoca. Eram 16 horas.
O primeiro contacto em português fizemo-lo ao acertar o preço da viagem até Lichinga (antiga Vila Cabral). Fomos numa pick up, um chapa colectivo, que avariou a 3/4 do caminho. Era falta de gasolina e o motorista desapareceu no escuro rebocado por uma bicicleta. Voltou meia hora depois com um jerican meio cheio de diesel. Em Lichinga jantámos uma refeição ao estilo português com batata frita e salada mista. Dormimos numa pensão barata onde nos ocorreu uma peripécia que mais tarde descreveremos. Na manhã seguinte, pelas cinco horas, partimos com destino a Cuamba, numa Hiace de 9 lugares cheia com 14 pessoas, suas bagagens e 6 crianças de colo (incluindo a Jota ao colo do Quico) foram uns 300 km em terra batida e dentro de um contínua nuvem de pó. Sobrevivemos. A água do banho saiu castanha.
Estamos em Cuamba desde ontem, bem instalados na básica pensão da Dona Alzira. Partimos amanhã cedo de comboio (finalmente a nossa primeira experiência africana sobre carris) até Nampula, a terceira maior cidade de Moçambique.




Metangula: a caminho, desembarque, vista sobre o lago.
Casa tradicional com embasamento; Cuamba: seu cinema-biblioteca e suas potentes montanhas

01 Novembro 2006

41. AQUARIUS NATURALIS


Há muito que não calçava barbatanas ou colocava óculos de mergulho, e voltei a fazê-lo no lago Malawi, ou Niassa para os moçambicanos. O poupadinho beach resort Mango Drift, composto de oito cabanas de caniço e um bar-restaurante, faculta aos seus clientes este equipamento acompanhado de básicas instruções de mergulho e de um mapa da ilha de Likoma com os pontos ideais para snorkling.
Entrei na água como um pato desajeitado às arrecuas. Nesse dia, o vento tornou a ondulação na praia do Mango Drift considerável e, como consequência devido ao fundo arenoso, a água estava bastante turva. Enquanto nadava em direcção ao local indicado no mapa, a uns 50 metros da costa, mirava o fundo claro mas nebuloso com desconfiança."Isto não se vê puto", pensava eu. Gradualmente, a água foi-se tornando límpida e foi com surpresa e agrado que me vi rodeado de peixes sobre um fundo rochoso. Mergulhei várias vezes, não mais do que a 3 metros de profundidade, e observei duas espécies distintas, de tamanho e formas semelhantes, esguias entre 8 a 12 cm, contrastando nas cores. Uns eram algo transparentes, cor de palha com um brilho azulado; outros emanavam um azul forte com reflexos luminosos. De lá saí, feliz com esta singela experiência subaquática.
Foi só nesse dia à noite, em conversa ao jantar, que soube de ocasionais aparecimentos de crocodilos naquelas águas e mesmo de um ataque mortal a uma infeliz lavadeira de roupa ali bem perto. Estas revelações não me chocaram significativamente. Chocado fiquei sim, no dia seguinte e de novo a bordo do ferry-boat Ilala, quando me deparei com 15 caixas de esferovite, cada uma contendo 7 sacos de plástico e com o conteúdo desses sacos: os mesmos peixes que vi no lago, vivinhos da silva mas confinados a 50 centilitros de água. Desconheço da legalidade deste comércio e transporte. Se for irregulamentar, que este testemunho e as respectivas fotos, sirvam como denúncia e prova.
Seja como for, este episódio levou-me a reflectir sobre os aquários domésticos. Não cabe aqui avaliar do interesse (duvidoso) dos aquários de exibição pública que, a meu ver, caem na mesma categoria dos jardins zoológicos.
Sempre pensei que os peixes de aquário, de águas quentes e frias, eram espécies "de aquacultura", ou seja criadas, gerações sobre gerações, em aquários da especialidade, à semelhança dos periquitos ou dos canários. Inocentemente, pensava que o cativeiro lhes era intrínseco desde há dois ou três séculos quando o homem ocidental começou a capturar animais, para estudar sim, mas sobretudo para alegrar o ambiente dos mais influentes.
Esta captura, nos dias de hoje, enojou-me. Que me desculpem os justos que pagam pelos pecadores, mas sinto que no futuro deplorarei qualquer tanque de vidro com areia, luzinhas, e um motor eléctrico que, para nosso deleite visual, dê condições artificiais de vida a estes seres! Prefiro lembrar-me da ilha de Likoma.



no ferry-boat Ilala: 15 caixas x 7 sacos = muitos peixes "a caminho de aushwitz"

31 Outubro 2006

40. PARAÍSOS PERDIDOS E CANIVETES SUÍÇOS

Estes lugares mágicos, fins do mundo, off the beaten track, estes paraísos perdidos e sei lá que mais, são muitas vezes aqueles onde não se evita o encontro com outro turista. Num minúsculo ponto do mundo basta a presença simultânea de dois turista para que se cruzem, apanhem o mesmo transporte, fiquem alojados no mesmo estabelecimento, e para que dali sigam juntos rumo ao destino seguinte - o mesmo destino seguinte. Será fácil apostar que serão duas pessoas que, tendo em comum algo tão único (como o é mesmo par de coordenadas sobre o planeta terra) só se podem entender bem e partilhar o momento.

(Um aparte apenas para referir que de facto já experimentámos empatias assim especiais, das quais resultaram amizades com uma força particular tão diferente das amizades comuns, algumas, claro, com mais repercussões que outras.)

Mas tal aposta, se bem que fácil não é garantida e se, por uma qualquer razão, os dois turistas não se reverem um no outro, torna-se então difícil a partilha da solidão que se buscava o que consequentemente aumenta o desagrado pelo "invasor". Para não estragar mais o momento nem se procuram largas explicações para esta incompatibilidade e a questão reduz-se ao desejo de que este (des)encontro não seja o início de um trajecto sobreposto ou de vários cruzamentos por algures próximos.

A ilha de Likoma aparece no Lonely Planet como um destes lugares perdidos (mais um, apregoado pelo guia das viagens-a-conta-tostões mais vendido em todo o mundo) . Segundo esta publicação, o lago Malawi é um cut off from the outside world e o norte de Moçambique aparece como the least-explored area of the country and challenging to travel around. Ora aqui está já um trajecto bom para se intersectarem viajantes.

Cruzámo-nos com o casal suíço a bordo do ferry-boat Ilala. Dormimos no mesmo deck, saímos ambos para a pequena ilha de Likoma e acabámos todos instalados no Mango Drift (descobrindo mais tarde que íamos de seguida para a mesma direcção Moçambique).
E contra as probabilidades não nos entendemos. Ao principio, o ambiente foi de mera indiferença mas depois instalou-se uma certa antipatia. Felizmente, o desagrado que aquele casal (nome de código "Canivetes") provocou em nós foi recíproco mas e houve o mais pequeno confronto. Eu cá, achei de extremo mau gosto a postura deles em acampar por tuta e meia no Mango Drift, cozinhando as suas refeições e, simultaneamente, usufruindo do chuveiro, do autoclismo, dos óculos tubo e barbatanas de mergulho e da água fresca. (relembro que viajavam no Ilala em Primeira Classe Deck quando há por metade do preço a segunda classe e, ainda mais barata, a terceira.)
Enganam-se os Canivetes se pensam que é à conta de dois dólares (ou lá quanto foi que eles pagaram) por noite de campismo que o Mango Drift tem todas aquelas facilidades "urbano-europeias" na bonita praia à beira do Lago Malawi. Se todos só lá fossem acampar aposto que a gerência nem tinha conseguido comprar o jerican térmico onde os Canivetes tantas vezes encheram as suas garrafinhas de plástico.
Hoje, terça feira, quando saímos da ilha para embarcar de novo no Ilala eles ainda por lá ficaram. Apesar termos o plano de palmilhar exactamente os mesmos próximos destinos penso que assim nos afastámos o suficiente garantindo que não nos voltaremos a cruzar com eles.




Paraísos, baobabs, os canivetes suíços ainda no Ilala e mais uma fish-eagle africana

30 Outubro 2006

39. NA ILHA DE LIKOMA

A nossa estadia na ilha de Likoma durou dois dias e três noites, que foi o tempo do ferry-boat Ilala ir ao Porto de Chilumba, no Norte do lago, e regressar. Foi uma paragem para o relax, boa para desenjoar da ondulação e sobretudo, para desentorpecer o corpo das tremuras apertadas em tantos buses.
O Mango Drift que nos acolheu calorosamente (e com equivalente frieza nos despachou no momento de pagar a conta - situação que alias se tem vindo repetir aqui em África) fica localizado sobre uma bonita praia na costa Oeste. Está a uma hora a pé do porto, dos estabelecimentos comerciais, serviços, mercado, restaurante, e da improvável e imponente catedral anglicana erguida aquando da colonização da ilha pelos missionários). Aqui assistimos à missa de domingo, repleta de gente bem vestida e calçada. A esquerda da assistência reservava-se às mulheres, a direita aos homens. Um coro animado com percussão entoava o gospel local intercalado com orações de espíritos leves e alegres por ali estarem.
À noite fomos "convidados" pelos empregados do Mango Drift para irmos até à escola assistir a uma festa. O coro da Ilha de Chizumulu (vizinha) actuava num celebração de três dias. Não seria um programa muito aliciante mas fariamo-lo com prazer até que… os "20 minutos" até à escola foram 40, à luz da Lua (feitos com o cuidado de apanhar referências para garantir o regresso quando bem o entendêssemos); a meio caminho descobrimos que as entradas eram pagas e ia parecer mal que os convidadores pagassem as suas; quando chegámos à escola, a luz tinha ido ao ar e não havia festa alguma! Esperámos outros "20 minutos" (iguais aos primeiro, ou seja 40) pela luz. E lá assistimos, ao ensaio, depois ao enxotar das pessoas não pagantes da sala, ao tapar dos vidros e ao cobrar das entradas. Quando o coro cantou o seu gospel ritmado em pleno, até já conhecíamos a música e a coreografia e já assávamos naquela sala. Dado o avançar da hora avisámos que só íamos ficar "20 minutos" e ficámos 10. Depois foi romântico encontrar o caminho de volta à praia.
As caminhadas/passeatas que fizemos nestes dois dias tiveram os seus encantos: o sol, as praias, os baobás e as gentes. Percorremos quase toda a ilha, e embora o fizéssemos logo cedo, foi inevitável que no regresso torrássemos. Íamos claro, protegidos com creme chapéus e munidos de água. Fazíamos paragens técnicas à sombra de mangueiras (ainda verdes os frutos) para arrefecer mas a dificuldade deste esforço físico soube bem! Destoou do rabo sentado em carro ou auto carro.
De ora em vez passávamos por pequenas zonas de cubatas. Os miúdos faziam festa por nos veres, uns mais parvos, outro menos. Corriam até nós e andavam connosco uns metros. Desde uns que brigaram para ver qual deles nos dava a mão, outros que pediam dinheiro, uns que mandavam risinhos estúpidos fixando a nossa cor ou os pelos das pernas do Quico, dois houve que fugiram as esconder-se mas lá sorriram quando lhes acenámos. Um atrevido agarrou-me o cabelo, creio que para ver como era. Fiz-lhe o mesmo (técnica recorrente nestas interacções: devolver perguntas, gestos...) e ai que me assustei com a textura de esfregão de arame daquele cucuruto! Imagino que para ele tenha sido igualmente estranho estes pelos compridos e moles que tenho.
Da paisagem da ilha ficam as redondas e fartas copas das mangueiras e os marcos que são os baobás. Chamam-lhes as árvores de pés para o ar, porque a sua copa parece ser raízes. Há umas histórias, lendas, sobre a origem destas árvores mas li-as por alto e não as consigo aqui reproduzir (algum animal irritado que plantou a sua árvore de pernas para o ar em sinal de protesto). Mas o impressionante nestas árvores é o seu tamanho, força e rectidão com que arrancam do chão para se rendilharem em ramos curtos e grossos. Vimos uma destas árvores derrubada, com tronco partido. Espantou-nos como tal ser pode ser feito de uma madeira tão branda.
Encantos exibidos, a recompensa destas caminhadas chegava também com o atingir do Mango Drift: uma coca-cola fresca era o passo intermédio para um belo mergulho na doce água do Malawi.



de Likoma: a Catedral Anglicana, o clube de video e o consultório para todos os males do Sr.Dr. Chambe

28 Outubro 2006

38. Voámos


De Livingstone até Lusaka (ambas na Zâmbia), de Lusaka até Lilongwe (capital do Malawi), de Lilongwe a Chipoka e de Chipoka a Likoma, até parece que voámos. Conseguimos ver superadas a nossas melhores expectativas para executar este trajecto. São cerca de 1500 quilómetros desde Livingstone, na ponta Oeste da Zâmbia, até à ilha de Likoma já no limite Este do Malawi, em águas territoriais de Moçambique. Demorámos 57 horas. As contas dizem menos de 30 km por hora e nós dizemos "que rápido!".
Às 5 da manhã de quinta-feira estávamos dentro do bus para Lusaka, um veículo bem distinto dos buses da Intercape ou da Greyhound que sulcam a África do Sul. Uma coxia, três lugares de um lado, dois do outro, levam, sem ar condicionado e apertadas, 150 pessoas rumo a uma nova realidade Africana. Partimos atrasados mas chegámos a horas. Eram 11 da manhã.
A principal estação de autocarros de Lusaka tem uma plataforma central coberta onde se arruma de tudo desde posto de informação, barracas de snacks, barracas de venda de bilhetes. À volta desta plataforma partem ou chegam buses, embarcam ou esperam passageiros, diferentes empresas convencem indecisos (e estrangeiros), taxistas angariam clientes, oferecem-se câmbios no mercado clandestino. Sabíamos da improbabilidade de conseguirmos uma ligação internacional directa para Lilongwe mas acabámos bafejados por uma grande sorte: esta ligação, que só se efectua duas vezes por semana, ia partir dali a uma hora e ainda havia bilhetes. Partimos passadas 3 horas, em mais bus chamado de Luxury, igual ao anterior, com todos os 150 passageiros, mais os seus 150 sacos de carga. Como brinde vinham ainda 150 baratas e 6 freiras que entoaram e dançaram Gospel durante toda a viagem.
Às nove da noite estávamos na fronteira. Saímos pelas dez. Às duas da madrugada chegámos à capital do Malawi e ficámos, como todos os outros passageiros, a acabar de dormir no bus e a esperar que a luz do sol mandasse embora os perigosos assaltantes que por ali circundavam.
A sexta-feira amanheceu às cinco da manhã e, depois de deixarmos as mochilas grandes num café, aventuramo-nos pelo centro da densamente povoada Lilongwe até à agência que vendia os bilhetes para o ferry boat. O Ilala sobe o lago Malawi todas as sextas-feiras e desce às segundas. Sorte novamente. O Ilala ia passar em Chipoka (porto a duas horas de distância de Lilongwe) dali a seis horas. Comprados os bilhetes, levantadas as mochilas, cambiadas as últimas kwachas no mercado negro, apanhámos um mini bus (Toyota Hiace de nove lugares que parte atulhada de 18 pessoas!) até Salima (quase lá). Daí seguimos num bus regional, velho a desfazer-se mas vazio, até ao entroncamento que ficava a dois quilómetros do porto. O sol a pique, as mochilas pesadas às costas, e bastou-nos pagar 50 kwachas a dois miúdos ciclistas-taxistas, bem simpáticos.
Às 14 o Ilala avista-se no Lago Malawi. Às 16 zarpámos. A água espelhava-se anunciando uma viagem tranquila, mas não aconteceu assim. O nosso bilhete de primeira classe permitiu-nos tomar um tão desejado duche e montar uma promissora cama no convés. Mas à noite o vento levantou-se e entre balanços e borrasca rezámos a Neptuno com medo dos enjoos e dos naufrágios! Quando o dia amanheceu o barco não tinha afundado nem as mochilas resvalado borda fora. O resto do dia foi passado, literalmente, em ritmo de cruzeiro. Avistámos Moçambique nos pequenos portos de Metangula e Cobué e chegámos à Ilha de Likoma com o anoitecer. Os brancos que desceram aqui tiveram ao dispor trasfegue directo em barco a motor até cada um dos dois alojamentos "de praia" disponíveis na Ilha. O primeiro, um speedboat para o luxuoso Kaya Mawa e o segundo, o nosso, um bote de madeira a motor que dividimos com uma francesa e um casal de suíços. Assim contornámos toda a ilha, numa navegação aventurosa, à luz da lua até ao Mango Drift. Fomos dormir.





na bus station de Lusaka, a única foto de Lilongwe; no bus a caminho de Chipoka; o cais de embarque de Chipoka, o Ilala e o lago espelhado, a madrugada ventosa

27 Outubro 2006

37. Tanta-Terra

Ao longo destas semanas de viagem, e de movimento, tem-nos acompanhado um grito contínuo. Vem da Terra. Nunca eu tinha ouvido uma Terra gritar nem tão alto nem com tanto fôlego. Por toda esta África Austral a força da Terra, da Natureza, enche-nos os ouvidos, os olhos, queima-nos o corpo, faz-nos sede, deixa-nos o corpo pegajoso. Persegue-nos e fica-nos na cabeça a inquietação sobre esta força.
Na Europa, a geografia retalha-se e deixa-se arrumar em países relativamente pequenos. Aqui no sul de África as características de um lugar podem durar todo o dia de viagem num bus a 100 à hora. As paisagens que observamos quando parados podem perder-se da nossa vista e fugir ao controlo das delimitações que mesmo sem querer costumamos instituir. Subir ao Waterberg Plateau e avistar aquele mar de terra sem igual; enjoar com as miragens no lago seco do Etosha; atravessar um deserto sem vida, só de rochas e areias para de seguida sentir o frio e o cheiro a putrefacção de areal da Costa dos Esqueletos; ver o rasgão na crosta terrestre nas Cataratas Vitória e ao fundo, sempre ao fundo, o "fumo que ressoa".
Bem, e se esta Natureza não tivesse a força que tem, certo seria que não nos cruzaríamos com tantos animais bestiais em plena descontracção ou agitação quotidiana: elefantes, zebras, antílopes, leões, rinocerontes, hipopótamos.
Mas a força desta Natureza Africana não se fica pela dramática dimensão das vistas ou pelos animais, na Europa em de jardins zoológicos, aqui em justa liberdade. Nem pensar!
Sente-se continuamente esta força no grito do calor que às sete da manhã já magoa o corpo, que no pino faz das sombras quase-pontos, e que só a meio da noite nos deixa refrescar na tenda. Sente-se nas tempestades de relâmpagos que começam ao longe e depois vêm ter connosco com chuva grossa e vento afiado.
Sente-se a sua força a rebentar em forma de enormes fortes árvores que vingam nesta secura, na forma como se agarram ao chão com um tronco grosso, ou como conseguem fazer sombra sobre si mesmas. E ao mesmo tempo sente-se em árvores magricelas, de copas nuas ou apenas salpicadas de folhas; e nas buganvílias e nos jacarandás coloridos; e nos cactos e aloés; e nos arbustos que parecem mortos-secos mas que afinal assim vivem.
E para além dos senhores grandes mamíferos, quantas aves, insectos ou lagartos ainda reinam aqui? Em aves, o sortido dos "vulgares" supera um dos bons spots portugueses. Há-as umas iguais às daí - pardais, poupas, gralhas, há-as tropicalíssimas com bico narigudo, com caudas de 30 cm ou franjas nervosas, há-as marítimas como a fisheagle ou o sneeker que pescam sem rede. Dos lagartos, imaginem só o que foi o suspense, no Ngepi Camp, enquanto tentávamos deslindar que bicho se mexia atrás de umas ervas. Era afinal um bichão, um lagarto do tamanho de uma das minhas pernas e ainda mais a cauda. Quanto aos insectos poderíamos relatar as peripécias que são os banhos ao ar livre ou preparar a cama (a tenda acaba por ser o local mais fácil de dormir sem pensar em bichos). E para remate, adormecemos ao silvo continuado de grilos em simultâneo com acordes coaxados de rãs (que naquela salada de sons não sei como encontram os seus parceiros).
E como se povoa o Homem nesta Terra que grita continuamente?

25 Outubro 2006

36. AS PEGADAS DE G.C.


É em Livingstone, na Zâmbia, que deixamos de pisar chão há pouco tempo palmilhado por Gonçalo Cadilhe e, portanto, ainda fresco na memória dos leitores das suas crónicas semanais no Expresso. Daqui, G.C. foi por Angola acima e nós vamos pela Zâmbia adentro.
Os nossos trajectos, o nosso e o dele, apesar de muito distintos no tempo e no espaço coincidiram em determinados locais. Inesperadamente, acabámos por passar pela Cidade do Cabo e pela península do Cabo da Boa Esperança, vértice carismático para nós portugueses, de onde G.C. iniciou a sua viagem (edição de 6 de Abril). Na Namíbia, na adolescente cidade de Swakopmund (edição de 24 de Junho) e na capital Windhoek (edição de 1 de Julho) igualmente se cruzaram os nossos percursos. A reportagem de 28 de Agosto, das Cataratas de Vitória até Tsumeb, no bus da Intercape, finalizou os pontos de contacto. Fizemos esse mesmo caminho no sentido inverso.
Estes acontecimentos nada têm de extraordinário ou propositado. Todos estes sítios são especialmente visitados por turistas e quase uma inevitabilidade para quem está condicionado pela mobilidade dos transportes públicos. Uma banalidade nas brochuras dos muitos agentes turísticos que, para surpresa minha, proliferam por este sul de África. Fomos, num certo sentido, previsíveis e conservadores, e não concretizámos algumas ideias que tínhamos.
Teria sido engraçado confrontar Jan, o caixeiro-viajante, na sua nova pensão em Withei (edição de 15 de Julho) com as folhas do Expresso em referência. Bem como o teria sido se tivéssemos encontrado o guia barqueiro Beni na sua aldeia de Boro perto de Maun, no Delta do Okavango (edição de 29 de Julho) ; ou ainda a senhora Agnes na sua banca de venda de café em frente à estação de caminho de ferro de Francistown, no Botsuana (edição de 5 de Agosto). Tudo isto teria sido possível mas, não se proporcionou. Paciência.
Tenho contudo um remorso que não abona na atenção com que li as crónicas de G.C. Falo do episódio em que G.C. dorme numa pensão/carruagem de comboio a meio caminho ente Windhoek e Swakopmund (edição de 24 de Junho). A idosa dona da pensão revela a G.C. "que tem um tesouro: uma miniatura do navio de Bartolomeu Dias, que o próprio deixou com os aborígenes da região, em troca de alimentos. Diz que encontrou este tesouro numa gruta." A revelação afinal não se concretiza e a velhota, perante a insistência de G.C., remata que poderão ser vistas "fotografias da miniatura, nas tabuletas ilustrativas da viagem de Dias que estão no Cabo da Cruz", mas por onde G.C. acabou por não passar para desvendar o mistério.
Ora, nós estivemos lá, no Cabo da Cruz, onde Diogo Cão chegou em 1484 e erigiu um padrão de pedra com as insígnias portuguesas da época. Lá estivemos, no suposto museu onde estaria a foto da miniatura. O museu é na realidade um gasto e seboso casebre de madeira erodido pelo oceano atlântico. Lá estivemos, vindos de uma travessia desgastante da inóspita costa dos esqueletos. Lá estivemos... vimos fotografias apagadas pelo tempo, e não reparámos se lá estava ou não a foto esclarecedora. Falhámos. No momento não tinha presente a crónica e a oportunidade perdeu-se. Adensa-se o mistério, que fica para ser deslindado por um(a) português(a) mais atento(a) que visite o padrão de Diogo Cão...



a réplica do padrão de Diogo Cão no Cabo da Cruz

35. Calor

Pois é, ele ameaçava, fazia-se sentir quando as nuvens se afastavam, e deixava-se adivinhar pela sombra curta do meio dia solar. Estamos em Livingstone, na Zâmbia, e o calor anda a derreter-nos a cada passo. Não temos nem acedemos a nenhum termómetro mas isto aqui está de fritar ovos. Nunca as águas frescas e as coca-colas tiveram direito a uma tão grande fatia do nosso orçamento em viagem. Nunca senti os objectos que uso no dia-a-dia tão quentes: ontem ao sair do duche vesti uma t-shirt que parecia ter acabado de sair do aquecimento; hoje a água da garrafa estava mais quente que chá, e quando saí do mini bus tinha as calças molhadas atrás, até ao joelho, e não era xixi! Com o passar dos dias a coisa promete agravar-se.

Chegámos a Livingstone, ontem, depois de uma passagem fácil pela fronteira onde pudemos adquirir directamente o visto de entrada por 25 US Dólares (sem direito a recibo e a vermos o funcionário a pôr, literalmente, no bolso a nota de 50 US$). No passaporte ganhámos um carimbo que não se consegue identificar de onde provém.
Estamos aqui apenas de passagem para atingirmos Moçambique. Ganhámos medo ao Zimbabué e assim gerimos o nosso trajecto para passar quase 3 semanas em Moçambique começando pelo norte e na esperança de termos tempos para ir descendo até Maputo. À medida que avançamos no mapa as etapas definem-se.
Amanhã, quinta-feira, em mais um bus madrugador (nem queiram saber a que horas o Quico me obriga a acordar desta vez) iremos até Lusaka (capital) de onde arrancaremos assim que possível para o Malawi, seja directamente para Lilongwe (capital) seja para Lilongwe por etapas (primeiro Chipata e depois Lilongwe). Uma vez em Lilongwe rumamos para a margem do lago Malawi (ou Niassa se falarmos da metade Moçambicana deste lago) onde passa duas vezes por semana um ferry que nos pode deixar do outro lado, junto a Metangula ou Cobué, fronteiras com Moçambique. Se estes planos forem avante, sábado ou segunda feira estaremos a apanhar o ferry-boat.
Entretanto não se apoquentem porque assim em trânsito ser-nos-à difícil arranjar tempo para vir ao blog. Continuaremos com a mesma estratégia de ir escrevendo posts sempre que nos apetecer, publicando-os logo que for possível. E infelizmente, continuamos também sem conseguir publicar fotos. Não percebemos o que se passa, por vezes o blog até consegue fazer o upload do ficheiro, aparece "done" mas não fica registado nenhum link no post... dicas? Serão bem-vindas. Ficam-vos apresentados os nossos planos.

Hoje fomos espreitar o lado Este das Cataratas Vitória! Uma holandesa que tomou o mesmo bus que de Windhoek nos levou para Caprivi ordenou (one place you should NOT go) que não fossemos visitar as Falls porque there is literally no water there these days. Pois, não cumprimos a tua ordem, as Cataratas Vitória não ficam propriamente no nosso caminho de todos os dias para o emprego. Íamos portanto à espera de ver um canyon seco assim fomos surpreendidos com o barulho cavernoso, que só a natureza faz, e com os brutais jactos de água que se atiravam lá para baixo. De facto vimos fotos e postais daquelas paredes de basalto fechadas por espessas cortinas de água depois de hoje termos andado na sua parte superior a saltitar entre os ribeiros e a molhar os pés em pocinhas do rio Zambeze. - Ok Holandesa, não tínhamos as cortinas, mas vimos a espessura de 100 metros da superfície da Terra nas paredes de rocha preta, riscadas, com a água das cascatas a bater chapadas nelas.
Para o lado Oeste, já no Zimbabué, adivinha-se a maior das quedas de água através de uma bola de fumo que se avista por vezes 32 quilómetros de distância (não sei se é informação de confiança, os prospecto informativos contrariam-se). O nome Europeu "Cataratas Vitória", pelo qual é conhecida esta que é uma das 7 Maravilhas do Mundo, foi atribuido pelo explorador Dr. David Livingstone que em 1855 terá sido o pirmeiro homem branco a ver as Cataratas e a lembrar-se da sua rainha. Este nome substituiu o nome original e bem mais propositado Mosi-oa-Tunya, que significa "o fumo que ressoa". (que mania esta a dos povos conquistadores em se sobreporem aos locais, e com que força e com que prevalência o conseguem fazer!).




Contra o calor: refrescos gelados; Livingstone estátua; Livingstone rua; as paredes rochosas das cataratas Vitória; contra o calor: pés molhados; o babuíno que nos quis gamar o saco do almoço

24 Outubro 2006

34. O NOSSO OKAVANGO

O rio Okavango nasce em Angola e é um rio especialmente generoso porque faz andar as suas águas por terras áridas, desertas que quase nunca vêem chuva. Por tão generoso, não espera pelo oceano para se alargar numa foz abastada. O rio Okavango desagua no norte do deserto do Kalahari, em profundo interior do continente, desfazendo-se num rendilhado de canais e lagoas que permite vida ali onde ela seria mais improvável do que a súbita queda de uma garrafa de coca-cola dos céus. E ali se fixaram aldeias, pescadores, árvores e animais.


As visitas ao coração deste curioso delta são feitas a partir do Botsuana que implementou uma rede de turismo de custos acima dos países seus vizinhos. Pretende crivar os turistas, recebendo apenas com grande luxo quem o venha visitar, e deixar muitos Pulas (moeda nacional que significa Chuva).
Para nós, entenda-se dois estrangeiros poupadinhos, sem carro e sem tour, com material de campismo reduzido a uma tenda, colchões e sacos-de-cama havia, grosso modo, duas possibilidades de chegar ao centro do delta. Apostámos numa e chegámos a um beco sem saída e sem poder voltar a trás. Ficámo-nos pelo acampamento no turístico Ngepi Camp com uma bela vista para o Okavango ainda gordo, na entrada do que chamam o Panhandle do Okavango, antecedendo o respectivo Delta.


Entre Sábado e Terça, três dias inteiros, aproveitámos para pôr a roupa em dia, para actualizar a escrita e para planear a próxima etapa da viagem (adiante exposta). Mas também descansámos, refizemo-nos de noites tortas em cadeiras de buses e de acordares precipitados ainda em madrugada.
Tarefas e descansos à parte passámos algumas horas a olhar para a água deste rio procurando hipopótamos. Do nosso lote de campismo ficámos a conhecer um trio deles que diariamente se banha de cima para baixo e vice-versa. Um deles está mais à parte, os outros dois têm grandes manifestações de amor abrindo aquela bocarra, zurrando, expelindo com ruído ar e água e sacudindo as orelhas repetidamente. É descobrir uma interrupção na ondulação lógica do rio e esperar que, numa cadência lenta, ascendam duas orelhas espetadas, dois olhos esbugalhados, e duas narinas largas. E passam-se meias horas sem darmos por elas.



o nosso estendal; ioga junto à tenda; o hipo à vista ou portugas à vista?


Ontem embarcámos num mokoro com o Christopher e fomos Okavango abaixo. Para quem sabe, calculará e acertará que eu ia cheia de medo. Para além daquela água sem fundo, da fragilidade do mokoro que é equilibrado apenas pelo remador, ainda há crocodilos a ajudar ao ambiente. Mas o medo passou rápido, bastou que o Christopher começasse a apontar para o ar, para as árvores, apresentando as aves locais! Impressiona-me cada vez mais a diversidade com que a natureza subsiste aqui na África. Em Caprivi, esta região verde, há tantos tipos de pássaros e tantas árvores diferentes como nunca vi. Vimos águia-pesqueira africana, ganso-do-egípto, sneaker (um tipo de guincho, parece-me), um outro tipo borrelho, umas andorinhas de asa vermelha, um king fisher preto e branco, um abelharuco pequeno... bem, mas passo ao mais conhecido: o hipopótamo! Tivemos o privilégio de espreitar uma manada de hipopótamos que estava de molho, a preparar-se para assistir ao pôr do sol! O Christopher levou-nos até eles pela margem de uma ilha. Finalmente conseguimos ver mais do que a sua cabeça espreitando! São tão grandes e pesados que parece impossível que nadem tão rápido. A mim parecem-me estes umas verdadeiras vacas de água. São vegetarianos e tudo! Assim de perto, os zurros de amor ressoam nos ouvidos e ganham alguma agressividade. O melhor: os bocejos contagiantes que estes animais se fartam de dar!
Daqui rumámos no mokoro Okavango a cima até ao campo. O nosso mighty Okavango não chegou a desmanchar-se em delta... mas encheu-nos a barriga e cá fica. Ora então, aqui regressaremos um dia com os miúdos, para uma viagem de mokoro em várias noites!
Amanhã voltamos à rotina. E para recuperar o ritmo toca lá a acordar às 4:45!




nenúfares, águia-pesqueira "fish-eagle", bocejo; Christopher, Jota e o mokoro

21 Outubro 2006

33. QUEM NÃO ALUGA CARRO


O bus das 18 chegou hoje antes das seis da manhã à bomba da Shell de Bagani. Tínhamos já alguém do Ngepi Camp à espera. Sabíamos que ficaríamos acampados porque todos os outros tipos de alojamento estavam ocupados para este fim-de-semana (o "outros tipos de alojamento" inclui cabanas de canas, tendas em deck equipadas com colchões e ainda casas em árvores - acrescente-se que as casas de banho de uso comum são vedações de canas em forma de círculo, sem tecto, com um caminho que, entre árvores e arbustos, desemboca numa sanita normal. Quando, há pouco, fui fazer xixi veio-me à cabeça aquela do Palma: meu deus! estou todo picado pelas abelhas).
No entanto, na minha mochila guardava-se a esperança de podermos vir a receber uns bons conselhos sobre como chegar a partir daqui ao Botsuana. Assim poderíamos atingir o delta do rio Okavango na sua parte mais a montante, menos propícia ao turismo dispendioso do Botsuana, e provavelmente mais impressionante nesta zona dado o avançado da estação seca.
Mas, em vez disso...
Tivemos hoje frente a um nascer do sol bem único.
No caminho de Bagani até ao Ngepi Camp (Ngepi quer dizer como estás) passámos por aldeias de uma Namíbia profunda: aglomerados de meia dúzia de casas-cabanas construídas com canas e terra, gentes que delas já saía caminhando, um crânio com o nome do lugar escrito na fronte e miniaturas de mokoros (canoas feitas de um grande tronco de árvore ou, hoje, em fibra de vidro) expostas para venda. Quando chegámos e nos sentámos na margem do rio Okavango, o sol vermelho via-se às riscas por detrás das nuvens. O rio é largo e gordo de água, as margens verdes como nada na Namíbia. A corrente segue forte. Uma agitação na água provoca a mudança de direcção da corrente. Nada se vê. Geram-se ondas pequenas mas que chegam a rebentar contra a direcção da corrente, e outras concêntricas se vêem também subindo o rio. Nada se vê? Vêem-se na cor clara da água dois olhos e uma testa escuros. Submergem, arrastam uma grande massa de água. Voltam à tona mais próximo de nós: confirma-se o hipopótamo!
Mas em vez disso...
O Ngepi Camp revela-se um lugar pouco apropriado para nós. O alojamento está sobrelotado não pela reduzida dimensão do lugar mas porque chegou uma tour de reformados holandeses e respectivo staff que esgotou as alternativas. Este Camp está direccionado para receber grupos em viagem organizada ou gente com carro. Servem snacks até às 17 e depois jantares a dois contos. E paga-se tudo no momento de saída (deve ser só por acaso que não temos pulseirinha). Disponibilizam algumas actividades mas a maioria delas é para grupos de 4 ou mais pessoas e cheira-me que não encontraremos parceiros entre estes reformados holandeses. O próximo bus que pode trazer gente será na terça, daqui a três dias, altura em que estaremos fartos disto.

Temos de nos render ao que de facto de que as nossas capacidades são limitadas e temos de conseguir tirar o melhor proveito delas.
Não temos o que é preciso para ir de mochila às costas ali para a estrada que fica a 4 km esperar que passe alguém. Temos o que é preciso para aqui ficarmos a ouvir tanto pássaro e insecto, de tenda montada debaixo de uma trovoada que ao meio dia já deu chuva e que agora se traduz em rajadas de vento. Temos a emprestada ;-) Jornada Hewlett Packard para pôr em dia o prometido aos leitores.
Na terça lá vamos apanhar outra vez o bus das 18, que passa aqui às 5:40 da manhã, e começar a saltar de terra em terra, de bus em bus, para chegarmos a Moçambique - que não fica propriamente aqui ao lado. Apostamos assim numa estadia mais prolongada nas costas do Índico. Quem sabe se não acabaremos a tostar ao sol num resort de luxo no arquipélago de Bazaruto.





nascer do sol, meninos aldeões e tenda no Okavango; instalações sanitárias: duche, água quente a lenha, sanita; a banhos na gaiola à prova de crocs and hipos

20 Outubro 2006

32. CARROS

Eu, de carros, percebo pouco. De mecânica automóvel idem. A minha enciclopédia da especialidade cresce a par da lista de avariais das quais o nosso UMM vem sofrendo. Cervo-freio, diferencial, bomba de água, cubos das rodas, são-me expressões familiares mas há no entretanto centenas de outras ainda desconhecidas.
O oposto acontece com a generalidade dos homens (sim homens, aqui o machismo ainda prevalece) africanos. Saber de mecânica é para o africano contemporâneo tão importante como eram (e continuam a ser, claro) os saberes tradicionais acerca da natureza que os envolve. É interessante este fascínio pela máquina em países onde, tirando a extracção de minério, os processos de industrialização massivos lhes passaram (e passam) ao lado. Será que se houvesse mais fábricas e consequentemente maior especialização laboral este espírito "self-made-man desenrasca" subsistiria? Especulação ignorante minha provavelmente...


Pelo que já vimos, na África do Sul e na Namíbia, coexiste uma indústria automóvel "à ocidente" com o característico improviso "vale tudo para prolongar a vida à máquina". Nas cidades e estradas de alcatrão do Kalahari, tanto se vêm acelerar (até aos cento e muito) Volvos e Audis de alta cilindrada novinhos, como se arrastam (até aos cento e pouco) carrinhas de caixa aberta com 30 ou 40 anos carregadas de pessoas e carga.


No mercado dos safaris (o ambiente que sobretudo nos tem rodeado) predominam as pick ups 4x4 de caixa fechada japonesas mais recentes: Toyota Hilux à frente, mas também Nissans, Mithsubishis e Mazdas. Encontram-se frequentemente os oldies Land Rover e Land Cruiser. A gama média é o 4x2 Nissam Almera e a baixa são os baixinhos WW Golf Chico (modelo de 1974 ainda em produção) e o Toyota Corola (modelo do princípio dos anos 90). Há ainda o universo paralelo dos safaris em tours organizados e que rolam em veículos estrambólicos. São camiões de rodados todo-o-terreno bastante altos, variáveis na dimensão (entre 12 e 30 pessoas de capacidade talvez), adaptados de modo a incorporarem os bancos com janelas em cima e os arrumos para toda a logística em baixo (cozinha industrial a gás incorporada).


Ao contrário do que prevíamos, alugámos dois carros até ao presente momento.
Na Cidade do Cabo, foi um Opel Corsa por um dia para explorar a península. A minha primeira experiência a conduzir "à esquerda" não foi desastrosa mas raspei o tampão da roda frente/esquerda num passeio e os gajos da agência deram logo pela coisa no acto de entrega. No contracto optámos pelo full insurance, mas este não é assim tão full, e não cobre danos nas rodas, faróis e vidros. O aluguer foi barato, cerca de 20 Euros/dia, mas o excesso pelo tampão de plástico foi mais 15 Euros.
Na Namíbia, foi nosso companheiro durante uma semana um Toyota Corola branco. O contracto de aluguer foi semelhante ao da África do Sul mas agravado no preço (35 Euros/dia) e pela inclusão do chassis na lista de partes não cobertas. Esta medida é consequência do mau estado das estradas (a maioria não alcatroadas). Eu sabia deste risco mas mesmo assim não evitei a estupidez de manobrar o carro, sozinho à noite, num parque de campismo polvilhado de calhaus enormes! O rugido da pedra a raspar o chassis assustou-me mais do que qualquer fera. Essa, foi a noite da depressão. Na manhã seguinte estava recomposto. Como se costuma dizer, é só chapa batida! Surpresa foi a agência de Windhoek ter desvalorizado o estrago ao carimbar um notável no visable damages. Esperemos agora pela factura do cartão de crédito...


Eu, de carros, percebo pouco, o que não impede que não tenha gostos. Tenho, mas essas preferências não se dirigem às viaturas per si mas ao contexto de uma determinada experiência: o carro da família ou de um amigo, um livro, um filme. É por esta razão que as minhas máquinas de eleição são invariavelmente modelos do passado: Citroen 2CV, Renault 4L, Mini 1000, UMM, UAZ, Land Rover 110, Toyota Land Cruiser.
Termino com um misto de homenagem e interrogação. Muito antes do actual panorama de globalização, uma marca automóvel japonesa semeou viaturas pelos quatro cantos do mundo: Toyota! Ásia, Europa, África, América, Austrália. Eles estão lá e em força! Confesso que a Toyota me conquistou também, mas pergunto-me como aconteceu esta proliferação? Tenho de investigar o assunto...







contrastes; Land-Rover, Land-Cruiser, Patrol; safaris estrambólicos; alugueres: corsa e corola

31. DO CACHO

30. E HOJE NO BUS DAS 18H

A entrega fácil do carro alugado, a boa despedida da Guida e a entrada próxima no bus das 18 rumo a Bagani-Divundu: formaliza-se assim a passagem de uma etapa para outra.
O nosso próximo destino é a região de Caprivi, uma tira que se destaca no norte da Namíbia por parecer que deveria pertencer a um dos paises vizinhos. No extremo mais oriental desta "pega" tocam-se para além da Namíbia mais 3 países: o Botsuana, o Zimbabué e a Zâmbia. Só depois deles se plantará Moçambique.
Vamos ficar alguns dias por Caprivi, tentando explorar o melhor desta zona que se diz ser de um verde que destoa do resto da Namíbia, e a partir da qual se pode espreitar o início do Delta do Okavango (já no Botsuana).
Será aqui nesta esquina da países que havemos de descobrir qual a melhor forma de chegar a banhos na costa do Índico, em Moçambique.

29. ETOSHA ZOOMIX

28. A POÇA DO RINO

No parque de campismo de Halali, uma das três ilhas cercadas da vida selvagem dentro do Parque Nacional Etosha, há um santuário. Está marcado, na planta entrega à entrada, um tracejado que se percorre a pé até um local chamado Rino's Pit.
Chegámos ao parque às 17:00 torrados pela insolação brutal com que o Etosha brinda os seus visitantes nesta época do ano. Depois de montadas as tendas, pelas 18:30 e aproveitando um certo refrescar de fim de tarde, fomos até à poça do rino.
O local assemelha-se a uma península, em forma de promontório rochoso. Um anfiteatro natural abrigado do sol e do vento, sobranceiro à planície, debruçado sobre o idílico charco do rino. Ao chegarmos, silêncio. Algumas pessoas dispersas sobre as rochas quentes esperam serenamente avistar algo. Abancamo-nos também. De momento, nada. Nem uma mosca. Apostámos entre nós a que horas e que animal apareceria. Perdemos todos. Anoiteceu e nem um vislumbre. Os espectadores iam e vinham da península para o parque como que em peregrinação. Fizemos o mesmo, às 20:00 voltámos ao campo para jantar.
Regressámos às 21:00. Luzes rasteiras iluminavam o caminho e um holofote disparava sobre a poça de água. De resto tudo igual, nada portanto. A certa altura uma coruja agita a noite atacando um grande insecto voador que cegava em frente ao holofote. Mais meia hora em silêncio a olhar para um charco vazio, nós e mais dez ou quinze humanos ali sentados com as câmaras fotográficas em stand by.
Por esta altura começo a pensar que esta é uma experiência religiosa. As pessoas estão aqui porque têm fé. Têm fé que serão abençoadas com o avistamento de algo extraordinário. Emociono-me com o momento. Sinto que o extraordinário é toda esta gente estar aqui à espera que nada aconteça. Mas, num segundo e para meu espanto, acontece.
São 21:30! Vindo do lado esquerdo do palco, entra em cena um rinoceronte. Vem pausadamente, como que desconfiado. Atravessa o charco pela retaguarda e, talvez alarmado com um relâmpago longínquo estaca. Fita a assistência de frente com o seu olhar míope. Inverte o sentido de marcha, dirige-se para a água e bebe. A quietude sonora da cena é interrompida por uma expiração ruidosa do bicho. Ouve-se, agora vindo do lado direito, um resposta com um fungar semelhante. Descortina-se um novo rinoceronte e este vem acompanhado de uma cria. Junta-se a família à volta do laguito.
Estou abismado, boquiaberto. O estranho é que as pessoas a meu lado não estão. Entre um bocejo e um gole na cerveja, vão disparando fotos nos seus canhões e tirando apontamentos. Começo a perceber. São cientistas que encaram mais uma noite de trabalho na rotina que deve ser a visita dos rinos àquele charco.
Saímos de lá às 22:00 com a barriga cheia de rinocerontes mas com a religiosidade vencida pela ciência.


27. Onde está o Wally?


três animais diferentes camuflaram-se na paisagem apanhada pela foto. Onde estão?
Uma pequena ajuda: nenhum deles é camaleão!

19 Outubro 2006

26. QUEM ALUGA CARRO


Foram dois mil e duzentos quilómetros de rodagem em estradas pouco alcatroadas de condução pela esquerda.
Foi o drama de julgar que tínhamos perdido o guia Lonely Planet, foi o drama de termos raspado numa pedra alta com o carro, foi o drama da ideia luminosa de irmos meter ar nos pneus, e foi o drama de não termos uma reserva marcada e ficarmos sem lugar onde dormir num raio de 200kms.
Ai! Tanto que pesa quando se aluga um carro. E tanto que acabou bem! O guia foi descoberto na inconformada segunda vez que despejámos o carro - estava entalado no fundo do porta luvas; os riscalhões da pedra acabaram por ser risquitos de acordo com o tipo que veio receber o carro; o pipo do pneu que a navalha do preto estragou acabou por ficar arranjado numa segunda incursão à bomba; e a falta da reserva proporcionou-nos a melhor noite de campismo, no meio do todo que é o nada do deserto, depois de pedirmos a uma família que nos deixasse usar o seu fogão.

Foram 7 dias. Cinco noites acampados e uma sexta noite (a última) de volta a uma cidade, de volta a uma boa cama. Foi levantar sempre cedo e já não ter luz nenhuma depois da do Sol se pôr (a Lua anda a nascer tarde).
Foram banhos de chuveiro entre uns coleópteros inofensivos. Foi um banho que nem sei como foi porque não havia luz.
Foram latas de atum General, latas de feijão-frade da Compal (compradas num supermercado em Grootfontein), foram 3 garrafões de água. Foi um jantar buffet contrariados, caros de coma-até-rebentar.
Foi tanto andar de carro que nos pôs as pernas dormentes. Foi tanto andar de carro debaixo de tanto calor que nos deixou bronzeados! Foi pó na estarda, no carro, na roupa, nas bocas.
Foram duas noites acampados no meio dos relâmpagos e com medo.
Mas foi bom!
Foi ver, ouvir e cheirar umas quantas bestas em verdadeira liberdade. Foi estar, andar e respirar uns quantos lugares em verdadeira exclusividade.
Mas poesia à parte, passamos à prometida descrição da nossa aventura.
Dois pontos fizeram-nos traçar a rota: o Etosha, e a Costa dos Esqueletos.


Etosha


duas vistas, uma girafa; dois elefantes, um orix e três zebras.

O Etosha é o grande parque nacional da Namíbia. São 20.000km2 de área (fizemos umas contas por alto que nos dizem que este é o tamanho do nosso Alentejo) em redor de uma zona pantanosa por onde se movimentam animais dos grandes!
Os parques da Namíbia são geridos desde 1999 pela Namibiam Wildlife Resorts (NWR), uma empresa semi-privada, que substitui desde então o Estado. Sente-se que as infra-estruturas dos parques estão pouco "modernas" mas que começam a rebentar os tiques à la resort. (é de aproveitar e ir enquanto é bom)
Só uma metade do parque é visitável por gente "normal" a outra metade tem acesso restrito. Nessa metade pública há 3 parques de campismo, a 70 km uns dos outros, devidamente vedados, e que servem de apoio (bungalous, campismo, loja, restaurante, casa de banho...) aos aventureiros que durante o dia procuram espreitar os bichos na sua rotina de vida.
Foi isso que fizemos e armados em camaleão mimetizámo-nos com os bichos. Acordávamos ao nascer do sol, fugíamos do calor da tarde (no primeiro dia não o fizemos mas aprendemos a lição), deitávamo-nos quando não havia luz do Sol, e entretanto andávamos por poças de água, por sombras, por caminhos onde apostávamos que estariam os bichos, sempre dentro do nosso carro, e nas estradas permitidas. O resultado da nossa caçada é-me difícil de colocar por escrito porque não sei como se verbaliza um bater de coração diferente do bater de todos os dias. É certo que bate mais forte ao primeiro vislumbre do animal mas parece-me que pára de bater para reduzir ao mínimo os sinais da nossa presença em lugar alheio. Também bate diferente se for a primeira vez que vemos aquele bicho. À segunda bate mais calmo e atenta finalmente em pormenores que vão de pontas de cornos ou bicos a pontas de cascos ou garras. À terceira vez parece-me que o coração bate mais satisfeito - temos sempre uma segurança na repetição, no hábito, na familiariadade.
E de novo esta poesia tosca que não me larga. Mas conto-vos antes que bichos vimos no Etosha (é que se faz tarde e temos de ir para o bus das 18).
Deram-nos as boas vindas as girafas e os bons dias os antílopes. Um final de banhoca de um casal de elefantes foi o que recolhemos da primeira poça de água a que chegámos. Seguiram estes paquidermes pela estrada e nós atrás deles fomos para os ver, cada um a sua vez, a terminar o tratamento de beleza com uma passagem pelo corpo na terra. Nada melhor para limpar aquela área extensa de pele de tantos insecto que a parasitam. São umas criaturas enormes e pesadas à vista, que se tornam maiores pela velocidade lenta em que se movimentam. Voltámos a ver elefantes em manada e solitários mas para o registo ficam os três elefantes de estranha cor branca-fluorescente que secavam ao sol depois de refrescados na lama que lhes mudou o look.
No segundo dia surpreendeu-nos um covil de leões (oito, contei) deitados na pouca sombra da manhã. Todos machos, calculámos que as fêmeas andassem na caça. Arfavam em ritmo que pareceu acelerado, bocejavam, esticavam as pernas em movimentos felinos. Também davam puns muito mal cheirosos. O momento alto foi quando um deles, um dos mais velhos, veio beber água a uma poça que estava no meio da estrada. Olhou-nos e aos carros que ali estavam parados, escolheu o nosso tampão de gasolina para cheirar em pormenor, e lá seguiu para se deitar mas cabeça erguida não fosse aparecer a comida, na boca da fêmea.
Há uma série de Antílopes pelo parque mas alguns dos nomes só o sabemos em inglês. Os Springbok são mais atrevidos e veêm-se muitos próximo das estradas. Há os pequeninos Steenbok, os bonitos mas custosos Kudos. Vimos ainda um Impala de faces negras e um Red hartebeest. Gostei especialmente dos tímidos Orix e dos sérios Gnus (em inglês chamam-lhe apropriadamente Wildbeast).
E aves? E esquilos? e suricatas, e mangustos? e os rinocerontes?
Temos que ir andando achamos...
Pela pressa da conversa podem concluir que tivemos os dias muito atarefados, sem tempo para escrever sobre o tanto que vimos.
Nova promessa fica feita para a conclusão deste post com a visita ao chacal da Costa dos Esqueletos.


Costa dos Esqueletos


a caminho da Costa, dois esqueletos: um barco e uma foca; corvos marinhos de faces brancas, chacal de dorso negro, sexo

12 Outubro 2006

25. próximos planos

Vamos mas é alugar um carro para dar uma volta pelo Norte da Namíbia!
Os buses não chegam até às entradas dos parques e os seus não-horários não se coadunam com o tempo que temos disponível até à partida da Guida.
Dos tours estamos fartos ainda sem os termos experimentado. É tudo empacotado, e os preços que se multiplicam por 3 até assustam. Ainda para mais fornecem tendas e material de campismo, e nós queremos mesmo é justificar o carrego das nossas desde Lisboa (e a Guida está desejosa para estrear a sua!).
Estamos hoje a alinhavar o trajecto, a estudar pontos interessantes, horários e outros requisitos de entradas em parques, locais de dormida, distâncias, horas...
Amanhã, sexta, temos o carro (um modelo caganito à la pelintra) aqui à porta. De hoje a oito contamos vir dormir de novo aqui ao Rivendell Guest House. Sexta, dia 20, apanha a Guida um avião de regresso a Joanesburgo e nós um bus da Intercape para norte.
Entretanto temos dúvidas sobre a facilidade com que nos encontraremos com um posto público de internet. Mas vamos escrevendo textos que publicaremos assim que possivel.

11 Outubro 2006

24. Desde Vindúque


Chegada a Windhoek, capital da Namíbia, no bus das seis e meia que não atrasou para infelicidade dos que, como eu, dormiam - ou qualquer coisa parecida com isso.
Fora, na rua, sentia-se um calor diferente. (será possível que tenha sido um calor fresco? Afinal estamos a 1660m de altitude) Diz-se que Windhoek (pronuncie-se Vindúque, adicione-se sotaque anglo-germânico q.b) quer dizer "esquina ventosa". À frente dos olhos apontados para ocidente está uma linha montanhosa enrugada contínua. Atrás, para nascente, montes. Por todo o lado lilases de jacarandás e rosas de buganvílias. E sobre isto umas nuvens, que se adensaram durante o dia, que rugiram lá para as quatro e se largaram em prantos pelas seis (excepção devidamente feita aos 12 minutos que demorámos a pé, desde o Pick and Pay até à nossa casa!).

Estamos alojados no Rivendell Guest House, uma casa de hóspedes bem acima daquilo a que nos temos habituado aqui, e também noutras viagens. Partilhamos o quarto pelos três, a casa de banho fica ali mesmo à frente, com o duche separado da sanita. Temos acesso a uma cozinha mais limpa que a média das cozinhas que conheço. E o preço não é nada por aí além. Pagamos 250 Dólares Namibianos a dividir por 3, o que me parece dar qualquer coisa como 9 euros cada (ai, espero ter feito bem as contas...). Curioso é ainda o facto de aceitarem aqui Rands (a moeda Sul Africana, e que nos sobrou tanta que até nos salta dos bolsos) como se de Dólares locais se tratasse. O câmbio é praticamente de 1 para 1 ou seja, tanto faz que moeda entregamos, recebemos sempre o troco na moeda local.

Depois de um merecido descanso e de encetados os preparativos que alimentarão os nossos próximos dias, lançamo-nos a caminhar pela cidade. Windhoek é-me estranha como qualquer cidade que à data de hoje esteja ainda a gozar a sua plena infância. Não temos cidades-teens aí pelo nosso jardim (lembro-me agora da Aldeia da Luz, mas uma aldeia não é cidade nem uma capital). Esta tem pouco mais de cem anos e estabeleceu-se como a capital administrativa da África Sudoeste Germânica. Tem um centro com avenidas todas elas largas, alguns prédios altos espelhados, outros térreos e chãos; salteiam-se lotes vazios aguardando construção para breve, entre outros, já ocupados, mas ainda à espera de que lhes dêem os últimos retoques; e pelo meio há pontuais composições de edifícios+espaço público já terminadas, todas elegantes, com vasos de terra arenosa onde se plantam cactos grossos . Gentes de todas as cores e tamanhos; casas que falam alemão, outras africáns, outros dialectos locais. Indiscutivelmente universal é a forma como se apresentam os táxis, quer a possíveis passageiros quer entre si mesmo. Curtos mas diversificados pis, pii, pi, pi-pi, piio dão música a quem passa como se fossemos todos conhecidos do táxi.

Joannesbrug tem 8 milhões habitantes, a Cidade do Cabo 2,6 milhões e Windhoek 240 mil. Ainda assim, recebemos aviso para não andar na rua à noite nem exibir grandes máquinas. Algumas casas de cá estão assinaladas com o tal "Armed Response", mas consigo, e gosto de pensar, que o fazem por uma questão de moda.



Windhoek e as tempestades do entardecer

10 Outubro 2006

23. Bottomless

O nosso Portugal é brindado, concordamos todos, com uma diversidade particularmente bem arrumada num tão pequenino rectângulo. Se nos deslocarmos sobre rodas, a monotonia da paisagem não durará mais do que um par de horas (e mesmo assim ou será porque estão a bordo do UMM ou a enjoar numas curvinhas das antigas).
A noção da existência de um Limite é coisa sempre presente numa viagem pelas EN Portuguesas. Sempre que a paisagem muda, sempre que se quebra a monotonia mesmo que seja para de seguida começar outra, apreendemos um Limite.
Os quase 1500 km, as mais de 20 horas de bus, que separam a Cidade do Cabo de Windhoek conseguem imprimir no nosso corpo a dimensão brutal da paisagem do Noroeste Sul Africano.
Depois de sairmos da paisagem urbana da Cidade do Cabo, respirámos ar português ao atravessar umas encostas de rochas e arbustos tal Serra da Estrela, por altura da sua Primavera. Esclareço que não gosto de comparar o que vejo como que outrora vi. Aliás, é raro que consiga encontrar essas familiaridades porque, à partida, nem me presto a isso. Assim sendo entendam esta associação como algo deveras forte. (até acho que tenho em Lisboa uma capa de um guia que é tal-e-qual). Seguiram-se campo de árvores de cultivo, vinhas, abriram-se campos de ervas altas penteadas, até que subimos, atravessámos uma rocha dura e descemos. A mão humana foi chegando cada vez menos para aqueles lados. Cultivos e cidades rarefizeram-se e a areia começou a espreitar à berma. Ponderando, reparo que já me senti assim perdida noutras paisagens, mas mais do que esta monotonia impressiona-me a falta de um limite, de um fim.
Agora há amontoados de calhaus cúbicos. Na sua base pontuam-se vários redondos: uns de arbustos verdes, outros de plantas lilases, outros de calhaus, outros de formigueiros gigantes. Há horas que vejo estes amontoados de calhaus cúbicos. Olho para o fundo desta paisagem, mas não o encontro.
O sol põe-se. O escuro traz-me o fim a isto. Vou mas é ver se durmo.



paisagens sem fundo

09 Outubro 2006

22. Mais um Bus

21. Boa Esperanca

como novidade neste paradoxal fora do mapa apresentamos um mapa-vivo!

Domingo: chegada à Cidade do Cabo. Pelo que dela tantos dizem, pela proximidade do Cabo das Tormentas, pela viagem que aqui nos trouxe que incluiu a experiência única de termos atravessado o interior de uma trovoada, só podíamos ter chegado a uma cidade ímpar. Mas... mas pelo simples facto de isso ter acontecido às oito da manhã de um domingo, ficámos a conhecer uma cidade fantasma, escura pelas nuvens que choviam e pouco amável, que ainda dormia na ressaca de uma noite de copos.
Depois de pousadas as bagagens no hotel, os primeiros metros que fizemos a pé chegaram a ser e até assustadores quando, à beira de atravessarmos uma passadeira, uma mulher nos sussurrou you shouldn't be on this part of the city.
Um pouco atarantados acabámos por ir ter à Water Front onde afinal estavam todos os turistas da cidade. Duas docas, uma da Vitória e outra do Alfredo, barcos em desfile (um de bandeira portuguesa), leões marinhos a passear, dois grandes centros comerciais, um jogo de futebol à besta, uma torre de horas, comidas e vendas de artesanato. Muita gente!
O que mais me impressiona nesta cidade é a forma como o tapete de casas, ruas e vias foi pousar entalado nesta geografia tão decidida. A montanha Mesa (1087m) e os Doze Apóstolos chegam às nuvens em encostas íngremes onde as casas não se conseguem implantar. O Atlântico delimita o espaço à volta destas elevações, deixando livre um pouco de terra plana. E é em cada pedacinho desse entremeio que se estacam casas e ruas e vive gente preta e branca, tão preta quanto os nativos que cá estavam e tão branca quanto os holandeses que cá chegaram.
À noite, a Long Street, onde fica o nosso hotel, ressuscitou e encheu-se de vida. Pelas gigantes montras de um bar pudemos ver o jogo do Porto contra uns vermelhos.

Segunda-feira: o Cabo da Boa Esperança está a 60 km da Cidade do Cabo. Não há como não ir ver o mar que os portugueses desbravaram.
Fizemos contas a preços e a coragens e alugámos um carro (aqui conduz-se pela esquerda - por isso tivemos de avaliar o custo a que nos ficava esta preocupação)!
Estivemos o dia a explorar a península que termina no Cabo da Boa Esperança. Seguimos pela costa Ocidental, chegámos ao Cabo e regressámos pelo lado Este, sobre a Baía Falsa.
Caminhámos pela praia onde estalam as violentas ondas deste irreconhecível Atlântico, até chegarmos ao resto do navio Thomas T. Tucker. Fomos ao Cabo e dissemos que nunca tínhamos visto um mar assim tão bruto. Vimos babuínos, avestruzes, antílopes, tartarugas, galinholas e muitas aves, vimos turistas e vimos surfistas.
Ainda nas pacatas vias do National Park Cape of Godd Hope, já ao fim do dia e cansados, conduzíamos há uns segundos em pleno relax e num silêncio de introspecção quando ao surgir de uma curva demos com um maluco que vinha em contra-mão, de frente para nós, como se... ai! ai! vai para a esquerda, vai para a nossa mão! Mas ainda agora me rio: o que raio terá ficado a pensar o condutor da Hiace?




na península do Cabo da Boa Esperança, senhora gaivota;
tomando fôlego para o ex-Cabo das Tormentas, navio atormentado, senhora tartaruga

08 Outubro 2006

20. A GARANTIA

FIFA segura Mundial 2010 na África do Sul



in jornal público, dia 4 de Outubro


Eric não nasceu em Joanesburgo e não se chama Eric. Nasceu numa aldeia na North-West Province, "emigrou" para a grande metrópole e, ao fazê-lo, mudou o nome de qualquer coisa impronunciável (pelo menos na minha memória) para um cool Eric.
Ao volante da sua Hiace, Eric vai comentando connosco a actualidade Sul Africana. O desemprego, a alta taxa de HIV-SIDA, a dificuldade do planeamento familiar, a tradição enraizada de produzir crianças, as religiões dominantes, o estado da economia, etc e tal, até que o assunto desemboca no desporto. Depois de sprintarmos pelo rugby e pelo cricket que "sim, são desportos com boa aceitação" (nos brancos sobretudo), corremos a maratona com o futebol, "o desporto Rei-Leão de África".
Nestas coisas, as tragédias valem tanto quanto as glórias e, como de glórias o futebol Sul Africano não tem sido frutuoso, Eric desbobina logo à partida a infelicidade que aconteceu há dois anos num "Sporting-Benfica" de Joanesburgo. Cinquenta espectadores sucumbiram por esmagamento na sequência do golo do empate do "sporting". Nessa altura, a multidão que se acotovelava às portas do estádio forçou a entrada e o resultado foi horroroso!
A propósito de coteveladas, e para desanuviar o ambiente, falo ao Eric de Benny MCarthy (futebolista sul africano, ex-FCP e campeão europeu com Mourinho). "Sim, é um bom jogador mas não gosto dele. Ele e o Quentin Fortune (ex-Man United) não respeitam a nação Sul Africana ao recusarem-se a jogar partidas menores, como aconteceu recentemente na disputa com a Zâmbia. Numa clara referência à black awareness afirma: "a lot of people lost their lives to make South Africa the country it is today, and those guys don't any show respect for those people!"
Outra vez para aliviar a pressão menciono agora o português Carlos Queirós (ex-seleccionador nacional da África do Sul) ao que ele responde: "Sim, eu gostava do Carlos mas foi lixado pelos jogadores europeus! O que eu gostaria, o que para que eu rezo, é que consigamos formar uma equipa unida e forte só com estes que cá temos!"
Na despedida, Eric deixa-nos uma mensagem em segredo: "Quando voltarem à Africa do Sul para o campeonato do mundo em 2010, e eu sei que vão voltar, estão convidados para a festa do meu casamento, na minha aldeia com os meus familiares. Matarei eu próprio um carneiro para o festim! Na minha cabeça essa será a altura ideal para orgulhar e sossegar os meus pais. Terei trinta e cinco anos! O segredo é que não sei se a noiva será a minha namorada actual, por isso, pssssiiiiiuuu...!

19. FACTOS E FIGURAS

Soweto é o acrónimo de South West Township.
Construído no final do século XIX como subúrbio operário da industria mineira do Ouro.
3,5 milhões de residentes hoje.
45 % de desempregados.
4500 camas no maior hospital do hemisfério sul.
1 central nuclear desactivada.
Incorpora habitações de todos os estratos sociais. Das barracas sem água nem luz aos bairros sociais dos anos 40-50, das moradias luxuosas aos novos programas de habitação social promovidos pelo governo do ANC.
Alberga a única rua no mundo onde viveram dois prémios nobel da paz, o ex-presidente Nelson Mandela e o arcebispo protestante Desmond Tutu.
Mandela viveu nessa casa 20 anos, antes dos 20 anos de prisão, e apenas 1 semana, depois.
Ainda hoje, Winnie Mandela vive e tem negócios de restauração no Soweto.
Depois do divórcio, Mandela casou com Graça Machel, tornando-se recordista no Guiness por ter sido primeira-dama de dois países diferentes.
Tsotsi, o filme vencedor do Oscar em 2005, é passado e foi filmado no Soweto.

07 Outubro 2006

18. SECURITAS

escrito no bus noturno Jo'burg-Cape Town

Pela experiência que tivemos até à data em Jo'burg (ainda lá voltaremos no final da viagem) fiquei sem opinião formada sobre o modus-vivendi daquela sociedade. Admito poder estar a ser injusto mas desconfio bastante que este alarmismo safe-not safe apresentado ao turista budget é uma realidade paralela que serve em muito quem se estabeleceu no negócio dos backpakers lodge's. Do ponto de vista empresarial é muito lucrativo ter os clientes sempre a gastar em actividades "indoors" ou em safe tours por eles organizados. É compreensível o excesso de zelo destas organizações. Se alguém "seu" se magoa a sério é mau (para o negócio?)! Mas insisto, fiquei com a impressão que a bandeira da segurança é usada também para proveito próprio.
Nas palavras de Eric (o nosso motorista e guia turistico) é safe andar de carro e not safe andar a pé. Parece-me evidente que para a classe média o carro é, um pouco, como que um colete à prova de bala, mas a classe média representa apenas uma percentagem dos oito milhões de pessoas que rodeiam Jo'burg. O grosso da população não tem carro e por lá anda...
Enquanto esperávamos o bus na Park Station, um dos perímetros seguros, encontrava-me às portas da zona off limits e, olhando o movimento da cidade, pensava: "se isto fosse um jogo de computador, eu jogava. Aposto que conseguia dar uma volta ao quarteirão incólume". Não o fiz, não fosse dar game over.

17. Joanesburg pelo vidro

Dez minutos foi tudo o que tivemos direito para presenciar da urbanidade da central Joanesburgo. Tudo através de um vidro, de dentro de um bus, num Sábado à tarde de agitação tépida.
Mas ainda assim mexiam-se gentes no mercado, arrumavam-se gentes e sacos num terminal de autocarros, comiam gelados dois miúdos no passeio, deitava-se um corpo à porta e uma loja, passavam-lhe por cima os que queriam entrar e montava-se um comício ao ar livre.
E passou o nosso bus, a preceito conduzido pela esquerda, sobre e sob viadutos, sobre múltiplas linhas de comboio, junto a vias de dois andares, sob largos cabos de alta tensão. E de novo o Soweto com o compasso das suas casas, o descompasso das suas casas pobres e o novo compasso das casas que o governo está a construir "para dar".
Até que o urbano se desfez em terras.
Um filme mudo de dez minutos, ao som da voz off calma de um dos motoristas: "...please, please! don't call us drivers! my name is Thimoty and he's Ceaser... and don't ask me when we'll be arriving 'cause I'm not allowed to be fortune teller all I know is we're always late... if you fill hot just point you fingers up..."



16. À saida de Jo'burg

Estamos na Park Station, o complexo de transportes rodo e ferroviário localizado bem no centro de Joanesburgo. Chegamos às 6:50 da manhã na esperança de conseguir bilhetes no único autocarro diário para Windhoek (capital da Namíbia). Sabíamos de ante mão que estava esgotado. Havia, contudo, a chance de entrar casa se houvesse cancelamentos de última hora. Tentámos em vão. O último lugar disponível era ao lado do condutor e foi ocupado por um jovem que chegou primeiro que nós. Falhado o plano A, virámo-nos para o B (claro!). Só havia reservas disponíveis para Windhoek para terça-feira e a perspectiva de ficarmos presos (literalmente) em Jo'burg durante três dias deu-nos asas para procurar alternativas. A liberdade apareceu na forma de uma ligação em bus Cidade do Cabo - Windhoek, igualmente na terça feira. Esperar por esperar vamos conhecer a dita mais bela cidade do sul de Africa. Comprámos um bus da Greyhound para a Cidade do Cabo (18 horas e pela noite dentro) e reservámos já na Intercape a ida de terça para Windhoek. Às 13 horas aí vamos nós!

06 Outubro 2006

15. Backpacking in Jo'burg

Esta expressão é absolutamente contraditória. Andar com a mochila às costas em Joanesburgo não se faz. É, como dizem os guias, asking for trouble. De facto, as mochilas e os mochileiros aqui viajam em táxis e ficam fechados nos hosteis. Todos estes se mudaram para os bairros sub-urbanos de classe média onde, dentro dos seus castelos-forte, tentam prestar alguns serviços de entretenimento aos clientes (piscinas, jogos, tv's etc.). O nosso hostel Gemini tem vedações de arame farpado, letreiros de Armed Response e até para ir ao supermercado se tem de usar o carro e o motorista de serviço. Perguntei ao manager se podia sair e ir a pé ao que ele respondeu "podes, sem mochila e sem dinheiro, mas se não levas dinheiro eles não vão ficar contentes... eh eh!".

14. olá, já cá estamos!

Nós dois, a Guida e as mochilas completas reunimo-nos finalmente durante esta manhã de sexta-feira. A fama de urbe violenta da cidade de Joanesburgo apresentava-nos um único menu para o resto do dia: um tour organizado pelo Jozi Tours aqui do Hostel Gemini. Partida às 10:30 e o pacote incluía: Apartheid Museum e Soweto.
À parte de ter faltado a luz no minuto em que entrámos, ficámos muito impressionados com a exposição que o museu alberga. Uma impressão dividida entre as características da informação que recebemos e a qualidade da forma com esta nos é apresentada.
A visita ao subúrbio (cidade-barco, subúrbio auto-suficiente) Soweto, incluía o Memorial Hector Pieterson (o nome da primeira criança a ser morta naquele que terá sido o acontecimento que, em 1976, marcou o início da luta contra o regime do Apartheid); a casa-museu Nelson Mandela (casa de 4 quartos); a Catedral Regina Mundi (onde ocorreram muitas reuniões de estudantes e algumas repressões policiais).
Para o fim ficou o "princípio de entrada" numa zona pobre do Soweto: Mustwaledi Shanty Town, onde a demonstração de falta de mimo pelas crianças, impressionou mais do que a falta de luz, de água, ou de casa que façam jus a o seu nome.
No regresso, ao som do inglês S.A. do nosso guia Erick que filosofou sobre... tudo!, outras vistas marcaram: os hostels (bairro de quartos para alugar), a ex-central nuclear, as casas: as casas pobres, as casas novas (que o governo oferece), as casas ricas. E ao chegarmos, de novo, as muralhas com arame farpado que contornam todas as habitações. E nos letreiros Armed Response.




Museu do Apartheid; mercado em Soweto; Catedral Regina Mundi em Soweto. Shoot me! disse o miúdo do meio na Catedral Regina Mundi; pintura mural em Soweto; skyline de Joanesburgo

04 Outubro 2006

13. já partimos

Já partimos de Lisboa! Aterrámos atrasados em Madrid e ainda assim temos tempo de sobra até à nossa ligação para Joanesburgo.
O novo terminal da Ibéria (mais um ondulado do
Richard Rogers) no aeroporto de Barajas, é grande comócaneco! O aviso é claro: daqui até à gate "U" são 23 minutos.
Fomos seguindo as setas mas desconfiados, convictos que num aeroporto ninguém pode ser forçado a 23 minutos de marcha. Subimos escadas rolantes, ultrapassámos uns quantos passageiros - empenhados que estávamos em bater o tempo proposto! - passámos por uma Zara, descemos escadas rolantes e desembocámos num átrio-sem-saída do fundo do qual rugiu de surpresa uma carruagem de metropolitano. Corremos para apanhar o comboio, sentámo-nos dentro da carruagem aeroespacial, e zarpámos. Quando percebemos que estávamos a atravessar a pista e aviação ficámos boquiabertos e sentimo-nos uns verdadeiros pacóvios. Do metro até às gates que começam com "U" ficou-nos a sensação de que tudo estaria sobredimensionado. Enfim, já houve quem tenha dito o mesmo a respeito das ruas da Baixa do Marquês.



Barajas: novo terminal Ibéria e monorail sub-pista

12. Tenham Cuidado!

"Tenham Cuidado, tenham muuuiito cuidado!" - pediram-nos uns que telefonaram, outros que nos abraçaram e alguns que comentaram este blog. É claro que vamos ter cuidado, ora se não formos nós a ter cuidado por lá, é certo que nenhum outro alguém se poderá acautelar em nosso lugar. Vai correr tudo muito bem, não tenham medo, vão ver! E alegrem-se porque vamos voltar com bom punhado de histórias para contar!
E àqueles a quem Moçambique quer dizer algo mais especial mandem-nos pedidos porque estamos desejosos de arranjar pretextos que nos encaminhem ao longo da linha do Trópico!
Esperamos que tenham também uma boa viagem pelas linhas deste Fora do Mapa.

03 Outubro 2006

11. Ensaio para Safari fotográfico



a partir do mesmo ponto, sem mexer a máquina: teste ao zoom 35-420mm;
leões, rinocerontes, babuínos, elefantes, girafas e 2-0 Liedson.

10. "Fazer as malas"

Já me é familiar fazer esta mala que é mochila (e desta vez é uma mochila nova, uma mochila mesmo à-séria cheia de pormenores engenhosos bem pensados). A lista-do-que-levar tem vindo a ser o mesmo ficheiro informático sobre um "save as" consecutivo. É um ficheiro algo afinado, de acordo com o que cada viagem ensinou; e algo adaptável, de acordo com as características do destino. Tenho uma certa confiança sobre o estado de apuro a que chegou esta lista, mas ainda assim não me escapo desta sensação pegajosa de que nos devemos estar esquecer de qualquer coisa.

Desta vez…
Estreamo-nos a levar tenda de campismo: o clima facilita, nos parques há lugares próprios para a montar, nós apreciamos o estilo e o bolso sairá, com certeza, satisfeito!
Estreamo-nos a levar novos equipamentos de registo fotográfico e registo escrito: zoom óptico alargado até à dúzia de vezes, para tentar captar pestanas em pálpebras de zebra; e um pequeno aparelho (emprestado – agradecemos!) onde podemos processar texto para fazer o gosto a este blog – bem e para ver se, ainda que não estejamos na China, não voltamos a sair de olhos em bico de um posto de Internet após horas de treino dactilográfico.

Mas como sempre…
O peso dita tudo e eu não posso seguir aquela regra osteopata de levar às costas 10% do que peso (!!). Atingir os 10 quilos de mochila só mesmo no voo de regresso e até lá aponto aos 8, vá lá que roce os 9 quilos.
Entre botas, sapatos e chinelos; entre saco de cama, colchão, tenda e toalha; entre binóculos, máquinas, carregadores, transformadores, adaptadores, cabos, cassetes, cartões; entre livros, cadernos, guias e fotocópias; entre medicamentos, repelentes, champô, escova e pasta-de-dentes; entre talheres, tigela e caneca... será um facto claro, e lógico, que roupa em quantidade ou em diversidade acabará por ser a primeira coisa de que prescindo.
Confesso: desta vez vou estrear-me no meu mais reduzido "roupeiro" de sempre (e eu já não primava por me apresentar com grande elegância).

02 Outubro 2006

09. No Trilho de Gonçalo Cadilhe?

Na sequência da citação no final do post “medo”, pensei em registar algumas palavras sobre Gonçalo Cadilhe e o projecto que o próprio, neste momento, abarca. Gonçalo está a viajar por África a caminho de casa, na Figueira da Foz. Começou em Abril na Cidade do Cabo e encontrava-se, até há pouco tempo, em Pointe-Noire, na República Democrática do Congo, cirandando, até ali chegar, pela Namíbia, Botsuana, Zimbabué e Angola.
As suas crónicas semanais publicadas no jornal Expresso têm sido, naturalmente, leitura obrigatória para nós. (Um aparte. Com grande pena nossa vamos perder os próximos seis artigos. Já que não estarão disponíveis online, não haverá uma alma caridosa que nos maile uns scans? Ficaria com direito a um super postal!)
Esta nossa viagem não terá sido programada sob a influência das suas crónicas mas estas são, agora, um elemento incontornável de inspiração. Algumas dessas folhas do Expresso constam da nossa bagagem. Quem sabe senão serão o motivo ou o pretexto para que venhamos a trilhar algumas das pegadas deixadas pelo Gonçalo? Afinal, só estaríamos a cumprir o que ele próprio afirma na nota introdutória do seu livro “A Lua pode esperar”: “O principal objectivo deste livro é pôr o leitor a viajar. Numa primeira fase, através das páginas que se seguem. Depois, com tempo e preparação, através do mundo fora.”

Ao Gonçalo, continuação de boa viagem!

30 Setembro 2006

08. Penso Rápido

1. O clima na costa do Atlântico (Namíbia) está
classificado como Clima Seco - árido e semi árido, com temperaturas médias altas e amplitudes térmicas muito grandes entre a noite e o dia. As temperaturas são refrescadas pela proximidade com o mar e pela corrente de Benguela.
Na costa do Índico (Moçambique), o clima é Tropical com uma estação seca e outra de chuvas, esta última no Verão. A corrente quente de Moçambique parece ter influência na precipitação, mas também deve proporcionar belas banhocas. Em Novembro devemos apanhar as primeiras chuvas e dar uns mergulhitos paradisíacos.
A vegetação em redor do Trópico arruma-se entre a Savana, a Estepe, e o Deserto. Como curiosidade fica a informação de que no nordeste da África do Sul há uma zona de floresta montanhosa.
Nós vamos chegar no início da Primavera e esperam-nos temperaturas máximas e mínimas entre os 35 e os 15 graus.


2. A diferença horária entre Portugal e todos os países por onde podemos passar é, à data de hoje e até que mude a hora cá (o que vai acontecer a 29 de Outubro), de apenas uma hora. Depois passarão a ser duas horas de diferença - sempre mais tarde lá do que cá. Se pensarmos que de uma costa de África à outra, e pela linha do Trópico, hão-de ir umas tantas centenas de kms (cerca 2100 km), então que não nos surpreendamos ao olhar para a luz de um dia Moçambicano, em Novembro: o sol nasce às quatro e meia da manhã, às dez e tal já vai a pico e às cinco e meia esconde-se. Baralha!


3. Os valores das moedas de cada um dos países resumem-se no quadro abaixo. Levamos connosco uma pequena cábula (sim e uma calculadora que, creio, nunca utilizámos) com uma série de valores básicos de conversão para cada moeda em relação ao euro e vice-versa. Temos aprendido que o multibanco é o melhor lugar para levantar dinheiro, há-os por todo o lado e as comissões são inferiores ao câmbio de dinheiro líquido ou traveller cheques. Assim, só à chegada a Portugal faremos as contas ao quanto, de facto, nos saiu o câmbio de cada uma das moedas. Rand, Dólar, Pula, Kwacha e Metical.


4. As tomadas eléctricas é que vão ser paus de vários bicos. Porque é que não são elas o mesmo tipo furo em cada parede do mundo? (não vale responder que "assim é que tem graça".)Levaremos um adaptador "universal" e outro que nos parece ser bom para a África do Sul. A ver...




Link Clima Link Câmbios Link Electricidade

27 Setembro 2006

07. Medo

Medo eu? Não, que ideia!


Será porventura este um dos sentimentos que mais percorre a mente do comum ocidental perante a perspectiva de viajar a la independente por África? No meu caso não me custa admitir que sim, tenho medo. Dirá a psicanálise que os medos enfrentam-se e, também por isso, aí vamos!


Na bibliografia da especialidade vêm elencados os perigos:
- saúde pública e doenças
- guerras e conflitos
- criminalidade urbana


Sinto que no capítulo da saúde é quase imoral estar muito preocupado. Seguimos e seguiremos à risca todos os cuidados médicos e higiénicos prescritos, e estes estão assustadoramente acima da média, quando comparados com a assistência médica a que os nativos do continente têm acesso.


Quanto à instabilidade política, salvo se tivermos a ousadia de pousar os pés no Zimbabué, não creio que arriscaremos muito a ter problemas com regimes governativos avessos à nossa condição de turistas vindos de Portugal. Há sempre o flagelo das minas anti-pessoais mas dessas só teremos que nos desviar... (não é assunto para brincadeiras, mas decerto que não pisaremos terreno assim tão fora do mapa)!


O problema derivado da questão (agora sim, piada fedorenta) da criminalidade “sem regras” é o que mais me “assalta”! Pelo que me tenho apercebido, parece haver, nos meios backpackers que trilham aquelas paragens, uma certa psique que coloca as experiências com a (in)segurança num patamar palratório ainda mais alto do que as habituais considerações económicas. Se por um lado esta atitude soa um pouco a “orgulho em comparar feridas de guerra”, por outro, o alarme é tanto que devemos mesmo levá-lo a sério. Eis um exemplo soft num relato sacado na Internet de David Hulshuis, Netherlands (Feb 02):


“In Durban I was looking for my minibus, carrying my big backpack and my daypack, when a car pulled up next to me with four white men in it. Like most white South Africans these people wondered why I was taking a minibus. 'Do you want to get killed, or what?' It was ironical (and scary too!) that these people said this while they were wearing vests with hand grenades, belts with guns and had automatic guns on their laps! They were obviously drug barons or some protection gang. Luckily they were not out for me, but just wondering why a white guy would take a minibus.”



Para acalmar as hostes que cá ficam, deixo a garantia (e o lamento também) que, dentro do razoável, faremos as coisas o mais seguras possível! Tomaremos precauções que saem fora dos nossos hábitos. Para começar, o seguro de viagem é topo de gama! O que se seguirá, a ver vamos...


Termino com uma mensagem positiva. Um trecho da crónica do Gonçalo Cadilhe, (jornal Expresso, 6/3/2006) quando este se encontrava na Cidade do Cabo e reflectia perante a perspectiva de atravessar todo o continente Africano até Portugal:


“Eu sigo, no entanto, optimista. Os países são feitos de pessoas, e eu acredito que a maioria das pessoas é feita bem. É feita de valores universais, que permitem a qualquer viajante sentir-se em casa quando se sente rodeado desses valores. O sorriso, a solidariedade, o bom-senso, a alegria, a música e a amizade valem mais do que a corrupção, a desonestidades, o ódio, os preconceitos raciais, os estereótipos sociais. Viajarei com o primeiro grupo de valores na bagagem, para trocá-los por outros iguais ao longo da viagem.”

24 Setembro 2006

06. Três semanas a três

Novidade neste Fora do Mapa é termos a companhia da
Guida durante as três primeiras semanas da viagem.
Para nós será a primeira vez que partilharemos um trajecto durante tanto tempo, mas ainda mais singular será fazermo-lo com alguém "tão familiar".
Para a Guida é também a primeira vez que mergulha numa aventura assim, mas a ela caberá escrever as palavras sobre este seu atrevimento.
Por mim direi que é com sincero gosto que me disponho a partilhar tudo isto com ela. Tem sido já diferente a organização dos preparativos, e estou curiosa para ver como será gerirmo-nos em cacho!


21 Setembro 2006

05. 15 dias...

15 dias para a partida, o lançamento do Fora do Mapa, tomar as vacinas, ir buscar os vistos, riscar objectos na lista do por-comprar… são as primeiras concretizações da viagem. A cadência do a pouco e pouco com que vamos pondo fim a algumas destas tarefas preparativas faz-me sentir nervosinha. Ansiedade, é o substantivo que escolho como o mais adequado ao meu estado: uma vez por outra são as mãos que transpiram, depois aquelas bolas quentes que aterram no estômago, ou uns formigueiro escorregadios do pescoço até às omoplatas!
Ontem resolvemos outro assunto: a compra os nossos dois bilhetes de avião (a Guida segue com outros bilhetes). Correu tudo bem se pensarmos que chegamos a Joanesburgo na data e pelo preço previstos. De novo recorrendo à Ibéria, companhia que nunca nos deixou ficar mal, faremos escala em Madrid. Mas ao invés de sairmos de Lisboa às 20:30, como tínhamos combinado com a agência, vamos sair às 17 acabando por apanhar a mesma ligação de Madrid para Joanesburgo. Ou seja, não posso ir trabalhar à tarde, como está(va) acertado com os chefes, e vamos ficar a fazer tricot em Barajas durante mais de 5 horas. Se verdade seria que já não íamos chegar fresquinhos-como-uma-alface a Joanesburgo, depois destas 16 horas de viagem (18 se contarmos com as 2 com que chegaremos antecipadamente ao check in em Lisboa) não sei com o que é que nos vamos parecer. Bom, talvez tenhamos pior ar que amigos do alheio!




E na altura em que escrevia este post, confirmando horas e números de voos, saiu mais um coelho da cartola do mago: a data do voo de regresso não está para o 17 de Novembro mas sim o 17 de Outubro!! Ai.
Atalhando o stress e poupando-vos conversas recheadas de palavras menos próprias, o assunto resolveu-se com um telefonema para a agência. As datas estão mudadas e parece que não haverá problema com as tarifas! Uff.

18 Setembro 2006

04. Consultas, Vacinas e Profilaxias
ou Um Tríptico Doente

1. Consulta do Viajante
FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DE LISBOA no Campo Mártires da Pátria em Lisboa, Telefone: 218 803 009, consultas diariamente das 15 às 18 horas. Funciona nos mesmos moldes das consultas de viajante do Instituto de Medicina Tropical mas tem a vantagem de (à data) apresentar maior disponibilidade de agenda. 30€ (marcar pelo telefone, antecipadamente)
Calor, subindo a Rua de São Lázaro.
17:00 - chegada ao edifício bonito da Faculdade de Ciências Médicas. Recebemos uns inquéritos.
17:10 - estavam preenchidos os inquéritos (afinal de utilidade estatística)
17:20 - entrada no consultório
18:10 –saída do consultório com uma lista onde eclodiam os seguintes itens:
- 3 vacinas febre amarela
- 3 vacinas febre tifóide
- 1 vacina hepatite AeB
- 1 vacina hepatite B
- 1 reforço hepatite B
- 1 vacina tétano
- antis: biótico, inflamatório, diarreico, histamínico
- e vários repelentes de mosquitos
18:30 - UFA! (vamos ter de repensar a arrumação da nossa querida caixinha dos medicamentos)
Fresco, descendo a Rua de Santa Bárbara.


2.Vacinas contra Febres
CENTRO DE VACINAÇÃO INTERNACIONAL, na Avenida 24 de Julho, n.º 120, 4.ºem Lisboa, Telefone: 213 959 944, vacinação diariamente das 9 às 12 horas. 0,15€ (!) (aparecer, é por ordem de chegada)
As vacinas da
Febre Amarela e da Febre Tifóide ficam registadas num Certificado Internacional de Vacinações (capa Amarela como a febre). Há países onde é obrigatório a apresentação deste comprovativo para que seja autorizada entrada.
As vacinas foram administradas com sucesso. Uma em cada deltóide. Uma trouxe dores musculares outra nem por isso. A vacina da Febre Amarela tem uma validade de dez anos ao passo que a da Febre Tifóide se garante por três. (Parece-me bem lembrado aproveitar esta imunização para as próximas viagens.)


3. e ainda...a profilaxia da Malária
Não há vacinação para a Malária (ou Paludismo). O que se pode fazer é uma profilaxia, ou seja tomar precauções, umas mais inofensivas que outras. Ora saibam: usar repelente de insectos (há os em spray, stick ou esponjas adesivas), vestir mangas compridas, calças e sapatos fechados ao anoitecer, e recorrer ao uso de rede mosquiteira sobre a cama no caso de ficarmos em quartos mais desatentos. E depois há o Mephaquin® comprimidos revestidos, a tomar ao ritmo de um por semana: desde a semana que antecede a viagem, durante toda a viagem e terminando 4 semanas após o regresso.

O princípio activo deste medicamento é o Cloridrato de mefloquina, um químico sintético desenvolvido nos anos setenta como substituto da quinina (esta sim, substância química natural - alcalóide - com propriedades anti piréticas, anti malárias, analgésicas e anti inflamatórias, hoje usada também para dar sabor à água tónica!).
A descrição dos efeitos secundários da toma deste medicamento é um tanto ou quanto assustadora.
Em doses profiláticas há poucos efeitos adversos mas quando as doses terapêuticas são "altas" (altas como eu, como tu? Altas como uma girafa ou como um embondeiro?) podem ocorrer: "vertigens, distúrbios de equilíbrio, problemas gastrointestinais tais como náuseas, vómitos, diarreia, bradicardia, erupções cutâneas, astenias, elevação dos níveis de transaminases, reversíveis e alterações psicológicas". Enfim, nada mais, nada menos do que aquilo de que precisamos para nos divertir à grande em viagem!
A dada altura avisam que os efeitos secundários se podem confundir com os sintomas da própria doença!:"Muitos desses efeitos podem estar ligados aos sintomas da malária e não devem necessariamente atribuídos ao medicamento." Dirá o schôtour: ó menina, isso ou são os primeiros sintomas de malária ou é reacção ao medicamento!
Lê-se também no folheto que acompanha a embalagem, um recado especial:
"Mulheres em idade de reprodução […] devem tomar medidas para evitar a gravidez. Essas precauções devem continuar por 2 meses após a última dose […] em virtude do seu princípio activo ser eliminado muito lentamente."
E para o fim deixo-vos com a cereja no topo do bolo:
"A mefloquina é teratogénica em ratos e ratinhos quando administrada em doses de [tantos]mg/Kg por dia. O fármaco também demonstrou teratogenicidade em coelhos quando administrado em doses de [tantos]mg/Kg e teratogenicidade e embriotoxicidade em dosagens de [tantos]mg/Kg." Uh! É este um parágrafo respeitoso, assusta de imediato. Mesmo sem que se saiba o significado do palavrão "teratogenicidade" a coisa não aparenta nada um ar são. Bom, mas vale a pena estreitar o que quer dizer teratogenia e já agora "embriotoxicidade". Começamos por esta última que é mais fácil. Se dividirmos a palavra em embrião+toxicidade ficamos mais esclarecido: qualquer coisa tóxica, envenenada para o embrião, ou feto. Agora com ida ao dicionário temos que teratogenia vem do Grego téras (prodígio horrendo, sinal monstruoso) + gígnomai (gerar), e aparece no dicionário como "produção de monstruosidades ou anomalias".


Conforta-me pensar que contrair Malária será pior que tudo isto… e que os efeitos secundários do medicamento só se destacarão durante aquelas últimas 4 semanas, quando tiver voltado ao trabalho!


LINK para Portal da Saúde

14 Setembro 2006

03. Assuntos Consulares

EMBAIXADA DE MOÇAMBIQUE na Avenida de Berna, 7 em Lisboa, Telefones: 217 971 994 ou 217 613 440 (insistir), Diariamente das 9:30 às 13:30.
Documentos necessários: duas fotografias, cópia da reserva de voo, passaporte com validade mínima de 6 meses, 60€


EMBAIXADA DE MOÇAMBIQUE I, DIA 22 DE AGOSTO


África do Sul, Namíbia, Botsuana, Zimbabué, Zâmbia, Malawi e Moçambique. São sete países sul africanos. Só um deles é ex-colónia portuguesa, só um deles sujeita aos cidadãos portugueses a emissão prévia de visto: Moçambique.


Grades ao alto dão as boas vindas a quem entra na sala de atendimento do serviço consular da Embaixada de Moçambique em Lisboa. Ao fundo um guichet espelhado e uma fila de três pessoas; à direita uma senhora sentada à secretária e por trás a foto do Sr. Presidente Armando Guebuza; ainda à direita e curvando se na nossa direcção, 3 ou 4 poltronas castanhas; logo à esquerda o mapa administrativo com as províncias do país, e mais ao fundo estão afixados vários cartazes de “equivalências de moeda”. (A partir Junho deste ano 1000 meticais antigos passarão a valer 1 metical novo. Até Dezembro vão circular ambas as moedas e nós vamos ter de nos desenvencilhar com isto!).
Contido naquelas quatro paredes sinto um ar que me parece ser Africano. Talvez nas paredes altas e nuas. Talvez na forma calma com que a senhora sentada à secretária pega e responde ao telefone, ou na forma como se levanta por detrás da mesa apoiando-se nela com esforço e em jeito de alavanca. Talvez na bondade com que a Alice, a menina que está do outro lado do espelho, tolera a indefinição relativa a DATAS-TRAJECTOS-ESTADIAS que caracteriza o nosso formulário (afinal) meio-preenchido. Um conjunto que sopra um ar pouco ou nada português e muito ou tudo africano.
A emissão normal dos vistos demora 10 dias úteis. Fazemos umas contas rápidas: estarão prontos a 6 de Setembro. Cada um paga a Alice os 60 euros devidos. Na volta ela pergunta: estão prontos dia 12, pode ser?


EMBAIXADA DE MOÇAMBIQUE II, DIA 12 DE SETEMBRO


Dia 12, lá foi.
Num gesto usual, mas do qual de facto não temos muita consciência (dada a forte probabilidade de vir a ser um gesto inconsequente), abrimos os passaportes para confirmar vistos e passaportes.
Um novo visto, azul e verde riscado a fazer lembrar dinheiro em nota mas estranhamente escrito à mão com caneta preto tipo edding, a letra redondinha como que para ser bonita.
Dois vistos pedidos um atrás do outro, indicando nos formulários as mesmas datas e os mesmo locais possíveis de Entrada e de Saída no país. O resultado: cada visto cada validade e uma delas antecipando-se à data programada para a viagem. Mostramos a esta outra Alice a nossa preocupação e ela simpaticamente fez-nos ver que as datas apontadas no visto eram irrelevantes (!): os 60 dias, que nos concedem para permanência, começarão a contar sempre após o carimbo da entrada que, esse sim, deve ser posto dentro daquele intervalo apontado no Visto. Pergunta-nos se estamos a perceber, estamos sim, mas não nos chega perceber, precisamos de acreditar! Mais um olhar e a dúvida sobre o que fazer, entretanto ouvimos os votos de Boa Viagem da Alice e lá acedemos a viajar assim, com o Quico a ter de entrar em Moçambique até ao 11 de Novembro. Em princípio entraremos muito antes desta data, mas aqui fica mais um assunto não descansado. E fica também lavrada a informação dada pela Alice, caso haja necessidade de, daqui a uns tempos, comprovar às autoridades alfandegárias o que nos foi transmitido na Embaixada em Lisboa (lugares há onde sair um dia após a data inscrita no Visto dá direito a conversinha com as polícias e ao pagamento de umas taxas aos senhores).
Atenção, no visto está claro: “sem dtº à fixação de residência”.

02. Trópico de Capricórnio

trópico s.m.cada um dos dois círculos da esfera terrestre, paralelos ao equador, que limitam as regiões do globo em que o Sol passa pelo zénite duas vezes por ano; adj. referente ao subst. grego trópos ou 'direcção (de um ducto, canal etc.) feição, modo, melodia, figura de palavras, maneira de pensar e de agir, costumes, hábitos, sentimentos', derivado do verbo grego trépō 'virar, dirigir, fazer evoluir num sentido, separar, desviar, transformar', pelo latim tropicus com pl. subs. tropici 'círculos paralelos ao equador'.
adaptado do Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, Círculo de Leitores, Lisboa 2003

12 Setembro 2006

01. Fora do Mapa



Na segunda edição das aventuras Fora do Mapa o nosso destino será a África Austral. A nossa directriz o Trópico de Capricórnio, sem mais prescrições.
Partimos na véspera da comemoração da portuguesa implantação da república e tomamos seis semanas para por ali andar.
De avião chegaremos a Joanesburgo e por estradas percorreremos as terras do Sul com a sua gente; de mão em pala sobre os olhos procuraremos animais e de olhos bem abertos paisagens; calor e chuva, mosquitos e feras, insegurança e desconforto, urbano e rural, colonialismo e independência, e a incógnita do que se acercará de nós ali, onde é rei o Leão mas a precariedade reina.

Inicia-se o novo http://foradomapa2006.blogspot.com/!